terça-feira, 9 de maio de 2017

UM POUCO DE RECONHECIMENTO >> Clara Braga

Ele entrou na minha sala sem obrigação alguma, não precisava me dar nenhum recado nem passar qualquer informação a pedido de ninguém. Ele estava passando e viu pela porta aberta uma pessoa desconhecida, imaginou ser uma novata e decidiu algo raro nos dias de hoje: ser gentil e desejar boas vindas. Entrou com um sorriso no rosto e foi logo perguntando:

- Você é professora nova aqui na escola?

- Sim!

- Poxa, seja muito bem vinda.

Eu agradeci e, um pouco sem graça devido à minha pouca habilidade social, perguntei se ele também trabalhava na escola. Era óbvio que ele trabalhava, mas sabe como é, fiz uma pergunta assim sem jeito só para não ser antipática. Mas, foi nesse momento que me surpreendi com o relato dele.

O simpático senhor é funcionário da escola tem uns anos e seus dois filhos são alunos, mas sua história com a escola é antiga, começou muito antes disso. Ele foi aluno lá, se formou não tem muito tempo em uma turma específica para adultos. Como vem de família humilde não teve oportunidade de estudar quando jovem, mas não se intimidou, embora tenha sido muito sacaneado pelos amigos por estar sempre cercado de pessoas muito mais novas, ele se matriculou quando pode e fez a escola normal até aparecerem essas turmas específicas para adultos.

É claro que imaginar um adulto em meio a várias crianças soa estranho, mas ele disse nunca ter tido dúvidas de que estava fazendo a melhor escolha, estudar era de fato a melhor oportunidade que ele tinha.

Só essas histórias de superação e de conquista já me emocionam, sou sensível mesmo. Mas ele estava apenas começando. Após contar toda essa história, ele completou dizendo que a profissão que ele mais admira na vida é a de professor, pois ele sabe que se ele conseguiu se formar, casar, criar dois filhos, arrumar um emprego e comprar uma casa para a família, foi porque ele teve professores. Nesse momento ele já estava com os olhos cheios de lágrimas e me pedindo desculpas por ser tão emotivo, mas lembrar dos professores dele sempre o deixava emocionado.

Eu fiquei igualmente emocionada, também pela história mas principalmente pelo valor que ele dá à minha profissão. Todos temos nossos momentos ruins, momentos de dúvida no qual nos perguntamos se fizemos a escolha certa, e são esses pequenos momentos de valorização que nos mostram que alguma coisa deve estar certa e tudo fica mais leve.

Parece besteira, mas fiquei tão surpresa e achei tudo tão inesperado que acabei não perguntando o nome do senhor e nunca mais encontrei com ele na escola. Comecei até a desconfiar que essa situação toda foi uma visão ou talvez meu subconsciente agindo para que eu não me auto sabotasse. Bom, não sei, só sei que foi assim: singelo e verdadeiro.


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Um comentário:

Ana Braga disse...

Clarinha, não dizem que encontramos Deus onde menos esperamos!