segunda-feira, 8 de maio de 2017

AS MUSAS E O RELOJOEIRO >> André Ferrer

Tanta festa para as musas: seus caprichos e seu trabalho de obsedar o escritor! Se não bastassem os rótulos de todo o sempre: o escritor é solitário, “gauche”, espião dos deuses... Uma bobagem despropositada! A não ser, claro, que o amadorismo baste.

Escrita é um trabalho tão lógico quanto compor músicas. Redigir textos e partituras depende de planejamento e trabalho. Nenhuma entidade virá de outra dimensão a fim de salvar o artista bloqueado. Então, não há mágica? Para o autor, jamais. A mágica só deve existir para quem lê o romance ou para quem escuta a sinfonia.

"Apolo e as musas", autor desconhecido
Todo artista verdadeiro é um ilusionista consciente da ilusão que cria. Fazer arte é fingir uma facilidade. Esconder do público todas as horas de trabalho árduo. Cada cálculo e cada gota de suor devem ficar do outro lado de um véu de naturalidade e habilidade performática. Então, um artista competente deve simular misticismos e nunca ser um místico. Deve ser um vórtice que não se deixa levar pelo próprio empuxo. Do contrário, estará acabado.

Muitos escritores relatam o bloqueio criativo. Fazem a dança das musas ao redor de uma fogueira em que ardem as queixas e os lamentos. Tudo porque não passam de uns crédulos. Envergam diuturnamente uma roupa que deveria ser exibida nos salões e despida em casa. Um adereço tão removível quanto um casaco, um cachecol, uma bota. Eles, contudo, nunca tiram as suas túnicas extravagantes. Adequadas para o cumprimento das obrigações sociais diante de um oráculo fictício, mas incômodas para o labor verdadeiro.

A mistificação não atrapalha desde que fique lá fora. Um pouco de “mise en scène” até pode ajudar no local e no momento adequado. Perigoso é quando um escritor, um músico, enfim, um artista, de tão crédulo, torna-se escravo do mito da inspiração. Na escrivaninha (que não é altar, mas bancada de oficina), ou o escritor se torna um relojoeiro metódico e persistente ou continua a amargar bloqueios criativos.


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2 comentários:

Analu Faria disse...

Excelente! Lembro-me de uma vez ter ouvido dizer que Fernanda Montenegro se via como "operária da arte". Achei interessante. Ajuda a empalidecer o mito de que o artista "nasce pronto" ou foi "tocado" por alguma divindade.

Zoraya Cesar disse...

Contundente e necessário, como sempre, André! Escrever dá trabalho. Escrever bem, mais ainda. Desmistificação em boa hora.