quarta-feira, 2 de setembro de 2009

IT >> Carla Dias >>

Escrevi uma longa crônica sobre um assunto que vem me incomodando, algo ligado à rotina. Quando cheguei ao final do texto, já havia desistido dele.


Pode ser que meu “it”, sobre o qual Clarice Lispector discorre com graça em seu belíssimo “Água Viva”, não seja dizer as coisas cotidianas com a habilidade que presencio em tantas crônicas de autoria dos companheiros da sala de estar do Crônica do Dia. Meu “it” pode ser outro, e morar num canto onde o cotidiano tem cores e cheiros vindos dos arrabaldes da terra das metáforas.


Um alguém me disse, certa vez, que eu era extremamente dramática. Nunca entendi muito bem de onde ele tirou isso, porque sensibilidade para sacar quando estou sendo enrolada não é o mesmo que dramaticidade. Talvez para ele, acostumado a não se envolver demais com as outras pessoas, o peso de uma possível conexão verdadeira tenha gerado o drama que ele delegava a mim. Mas a verdade é que não consigo ver a vida com a frieza que, vez ou outra, é extremamente necessária. Com a distância desarmada de emoções.


A crônica executada falava sobre essa necessidade de levar as situações com distanciamento, como que desempenhando um papel. Eu acredito nisso, que nem sempre podemos ser quem somos, ainda mais quando se trata de trabalho, de lidar com universos outros que não os nossos. Porém, a cada dia tem sido mais difícil desempenhar esse papel. Há esse cansaço que me pegou de jeito e que não me permite ser tão eficaz quando se trata de atender a protocolos, vivenciar currículo. Estou nesse momento em que não gostaria de ser mais ninguém, além de mim mesma, com todos os adjetivos que me cabem, com minhas inquietações e sossegos.


Vou ter de pensar um pouco mais a respeito, revirar as gavetas interiores, colocar na balança dos desapegos o que posso realmente deixar de lado, neste momento. Assim como somos obrigados a limpar aquele quartinho de bagunças, antes que se torne impossível fechar a porta, acredito que tenhamos de também dar uma geral na nossa alma e na nossa realidade, de vez em quando.


Eu comecei essa arrumação dando fim na crônica que escrevi antes dessa. O que virá a seguir, sei lá, como sei lá uma porção de outras coisas que insistem em se manter no mistério.




www.carladias.com
www.osestranhos.com
www.talhe.blogspot.com



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5 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Carla,

Essa crônica tem gosto de fruta madura, colhida no pé. Que delícia! Li, reli e fiquei, ainda, com água na boca...
Que bela arrumação! Por favor, continue... Nós agradecemos!

Marisa Nascimento disse...

Carla,você é surpreendente! A propósito, não achei seu livro na Saraiva aqui em Ctba. Será que é só pela internet? Acho que não!...se os curitibanos forem espertos, já esgotou a primeira tiragem. :)

Carla Dias disse...

Juliêta... Quanta gentileza a sua por participar dessa minha arrumação. É sempre bacana quando alguém chega e se senta debaixo da árvore e suas palavras dependuradas.

Marisa... Obrigada!
Pois é... Por enquanto, a venda é só pelo site da Saraiva ou da Bookmix. Mas confesso que adorei a ideia de a tiragem ter esgotado : )

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gostei dessa crônica desconstruída. :) Bem-vinda ao Reino do Sei-Lá. :)

Carla Dias disse...

Ah... Tem tanto mundo/gente/coisa/planta/sonhos/travessuras/amores bons nesse Reino do Sei-lá... Vou ficar mais um tempo por aqui :)