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VIAGEM DO NÃO AO SIM
>> Eduardo Loureiro Jr.


A cada negação se segue uma afirmação. E frequentemente se afirma justamente aquilo que acabou de ser negado.

Repare quando se pergunta a alguém: "Você queria falar alguma coisa?". A pessoa responde: "Não...". Mas, ao invés de ficar calada, continua. Ou seja, ela realmente queria falar alguma coisa embora tenha negado isso.

"Quem desdenha quer comprar", diz o ditado. A inveja costuma se fantasiar de negação para em seguida imitar a coisa negada. Tantas vezes fazemos justo aquilo que não admitimos que daí nasceu o conselho: "Nunca diga 'dessa água não beberei'". E o jeito mais certo de saber se alguém fará alguma coisa é avaliar a intensidade com que ele a nega. Nega pouco, fará pouco. Nega muito? Sai de baixo!

Comigo aconteceu de negar um simples comentário de uma amiga, coisinha à toa, dita de passagem: "Viajei com 23 pessoas", disse ela. E eu respondi: "Não sei se conseguiria viajar com tanta gente".

De noite, um sonho. Um não, dois.

No primeiro, eu estava dentro de um ônibus urbano, conversando com uma senhora já bem idosa. Ela era do Chile, e quando eu tentava dizer-lhe qualquer coisa, acabava me atrapalhando, metendo o italiano no meio do espanhol. De repente, alguém me puxou a mão direita, em que eu tinha um pequeno objeto de madeira em formato de coração. A mulher me aconselhava — ou repreendia? — dizendo que só "tal coisa" se "tal coisa"... Não, não faço mistério à toa nem guardo segredo. É que não lembro mesmo de que "tal coisa" ela estava falando. Assim como não entendo por que me chamou a atenção o fato de eu estar de gigolé, muito menos que tipo de relógio era aquele que eu trazia no pulso, um relógio redondo — feito um olho com ponteiros — pendurado numa pulseira.

No segundo sonho, eu participava de uma cerimônia religiosa e depois trocava de roupa num quarto de vidro-espelho em que eu podia ver as pessoas fora, enquanto elas não podiam me ver dentro. Então ouvia meus pais me chamarem: "Você vem ou não?" E lá fui eu, apressado, entrando no velho fusca marrom de minha infância.

Acordei de madrugada com aquelas imagens redondas: o relógio e o fusca. Evitei dormir imediatamente e fiquei gravando os sonhos na memória, pra anotar pela manhã. Enquanto repetia o sonho pra mim mesmo, me veio outra imagem redonda: a Terra. E me ocorreu um pensamento que não sei se foi meu, do sonho ou de alguma outra pessoa ou lugar: que a Terra é um veículo do Tempo, e que a gente viaja acompanhado. Com 23 pessoas?! Não, dá um "pouquinho" mais que isso, se eu contar apenas familiares e amigos mais próximos. Se eu incluir as velhinhas chilenas e as firmes conselheiras, o número sobe pra não sei quanto. Se eu me esforçar mesmo na conta, com certeza chego aos bilhões.

MASAYOSHI ETO - Corbis.com
Agora corrijo o que disse no início. A afirmação não se segue à negação. Quem nega já está fazendo. Quem fala que não quer falar já está falando. Quem desdenha já está comprando. Quem diz que não beberá já está bebendo. E eu, quer dizer, nós já estamos viajando.

Comentários

Carla Dias disse…
Pois é, Eduardo... Achamos que estamos sós, mas estamos é bem acompanhados. Quando mal acompanhados, uma fila de companhias nos acompanham, como se tivéssemos andando rumo ao enterro do sentimento. Na alegria ou na tristeza. São tantos os que nos acompanham que em 23 dias seria impossível dizer todos os nomes, de todas as suas vidas.
Pois é, Carla. E nem a morte nos separa. :)
albir disse…
Imagino que você tenha dito: - não vou filosofar!
Abraço.
Ih, Albir... Agora você, leitor atento, me pegou de calças curtas. :)

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