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EU CONFIO EM VOCÊ
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Devemos acreditar nas pessoas? Até que ponto? Aqui, como em tudo mais, nossa capacidade de acreditar varia em função das experiências passadas. Quem tem um currículo de decepções e frustrações será, provavelmente, mais descrente. Mas claro, sempre nos resta um espaço: mesmo com os baques da vida, temos a opção de continuar acreditando.

Por que digo isso? Lembrei de algo curioso. Faz tempo que não lembrava, mas lembrei. O caso é simples: estava com dois amigos, à noite, de conversa fiada. Perto do mar que um dia morei, aquela coisa de não fazer nada, restos de um viver tão diferente do atual.

Chega um garoto. Quase adolescente. História triste, cores comoventes. Que aquela noite, apesar do seu esforço, não vendeu nada. E mostrou seu instrumento de trabalho - uma humilde bacia com várias pamonhas. Iam estragar, e ele não tinha dinheiro sequer para voltar para casa. O que diria em casa?

Os três, na verdade, se comoveram. Silêncio constrangido. Eu tomei a dianteira. Falei, vem cá, tudo bem, aqui estão vinte reais (ele só havia pedido um ou dois). Vai lá naquela banca de jornais, troque por duas de dez, que uma delas será sua. Ele exultou. Perguntou se queria que ele deixasse as pamonhas como prova que voltaria. Eu disse que não precisava.

Bem, eu podia estender a história, mas vou direito ao ponto: ele não voltou. Andaram minutos, dezenas deles, e ele não voltou. Meus amigos, pós-graduados em sacanagem, aproveitaram, dizendo que fiquei lá uns três dias esperando o garoto voltar.

Eu confesso: não esperava. A não volta me surpreendeu. Não cogitava, pelas circunstâncias, dessa possibilidade. O tempo passando e eu, contra as evidências, buscando desculpas: deve estar tendo dificuldades para trocar o dinheiro, é isso...

Não foi isso. Ele simplesmente não voltou. O que teima em voltar é a lembrança desse caso, meio que para testar meu grau de confiança na humanidade.

Comentários

Nós confiamos em você, Felipe! :) Bem-vindo ao time do Crônica do Dia. Sinta-se em casa e mande ver!
Carla Dias disse…
Felipe... Eu confio nas pessoas e acho isso de grande valia para mim. Sei que se trata de uma escolha, que é pessoal. Mas o grande barato de confiar assim, sem pensar a respeito; sendo este o jeito de se viver as situações da vida, é que a gente sabe que cada um faz o que quiser com o que recebe. E eu acredito em darmos o melhor de nós sempre acreditarmos que somos capazes de fazê-lo, sem pestanejar.
Kika disse…
Então Felipe,
eu também já esperei em vão.
E, a cada vez que isso acontece, tento pensar que a atitude do outro, seja qual for, não vai determinar a minha atitude. Portanto, se for o caso, continuarei esperando. Outras tantas vezes que forem necessárias.
Bela crônica!

Kika
Anônimo disse…
Puxa, Felipe, que texto bonito... Parabéns.

Paulo Pontes

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