sábado, 5 de setembro de 2009

DESCULPA [Carla Cintia Conteiro]

Como a mãe que espera a chegada do Trem das Onze, não dormi enquanto meu filho não chegou. Mas os horários da juventude de hoje são bem mais tardios e os perigos, se não maiores, mais bem documentados. E olha que eu sabia que ele estava envolto em uma certa bolha de segurança.

Imagino o desespero daquela mãe cujo bebê foi sequestrado logo depois de sua família ter sido despejada numa reintegração de posse em São Paulo. Como dorme uma criatura dessas? Felizmente, a sequestradora foi localizada, o bebê devolvido. A imagem dela e seu companheiro transbordando de amor dentro de um desespero tão grande me remeteu a outro casal, Maria e José. Eles também estavam sem abrigo e também tentavam proteger seu filho de alguém que queria lhes tomar a criança.

O casal bíblico foi visitado pelos três Reis Magos. A dupla da periferia paulista foi procurada pela Maga Patalógica, digo, patológica, alguém que simulou uma gravidez e precisava chegar em casa com um bebê nos braços, nem que fosse às custas da desgraça dos desgraçados. Veio prometendo ajuda e levou o único tesouro que restava aos miseráveis.

Vejam que, entretanto, a maré de infortúnio dos dois jovens pais pode ter sido uma bênção comparada ao destino de seus vizinhos. Mostraram a cara no Jornal Nacional. Não aquela cara de fúria, revolta e dor profunda da hora do despejo e da demolição que mais repele que solidariza a classe média que morre de medo de pobre. O público do noticiário viu como ficam essas pessoas nos dias seguintes, seus dramas cotidianos. Esses trágicos personagens começaram a ganhar donativos, roupinhas, fraldas, brinquedinhos para o bebê. Quiçá consigam um local melhor para morar que o abrigo onde estão malocados. A visibilidade foi, talvez, sua salvação.

E os outros?

E aqueles que podem vir a ser os filhos insurretos da desesperança que oferecerão os perigos que temo enquanto meu filho não chega em casa? Quem há de se preocupar e cuidar deles, se gostamos de fazer de conta que eles não existem, até baterem no vidro dos nossos carros?

Depois que os campos de concentração foram revelados aos cidadãos alemães, no final da Segunda Grande Guerra, eles disseram que não sabiam de nada. Juraram que seu silêncio e imobilidade não era um pacto com o nazismo.

O que nós da classe média responderemos ao futuro?

Qual será sua desculpa?



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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Uau, Carla! Que suavidade e... que pancada! :) Maravilha de texto. Conciso, envolvente, profundo, direto. Uma verdadeira obra-prima.

Juliêta Barbosa disse...

Carla,

O seu brilhante texto lembrou-me:

"O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons."

Martin Luther King

tania meliga disse...

já disse que quando crescer quero ser igual a v c..rs..lindo texto, preciso, conciso e forte....continuo sendo cada dia mais sua fã