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PASSOS DE FORMIGA SEM VONTADE
>>Eduardo Loureiro Jr.


Não entendo. Juro que não entendo. Tem dias que não me entendo. Não sei o rumo. Quero saber o sentido das coisas e não atino. Onde é que essa estrada vai dar? Não tenho ideia.

UNO - Flickr.com

Admiro as pessoas que olham para a frente com convicção, que sabem onde vão chegar. Aquele tipo de gente que, quando criança, já sabe a profissão que vai seguir, para quem o futuro é tão claro quanto o passado. Mesmo as pessoas que não sabem para onde vão, mas que seguem agarradas a algo como um filho, um casamento, uma religião, um emprego, mesmo essas — que eu não admiro — talvez eu inveje por simplesmente seguir o curso dos dias sem se questionar tanto.

Às vezes — mais vezes do que eu gostaria — olho para frente e não vejo quase nada. Da mesma forma, olho para trás e vejo pouco. O que fiz da vida? O que vou fazer? Agora mesmo, o que faço? Falta-me vontade real das coisas como às vezes tenho vontade real de comer um balde cheio de pipocas. Não tenho esses desejos, quereres, gostares. E tampouco antipatias, mal-quereres: não tenho ojeriza a nada, tudo me parece aceitável dependendo da ocasião. Devo ter, então, inveja dessas pessoas que amam ou odeiam.

(Ainda ontem, assistindo ao meu São Paulo enfrentar o Avaí, num primeiro tempo difícil, zero a zero, lamentei — fazendo mesmo uma cara de grande insatisfação — que, após uma linda tabela com passe de letra, o time adversário não tivesse concluído a jogada em gol. Fiquei até mesmo desapontado com o zagueiro do meu time por ser tão eficiente e impedir aquele que seria um golaço, uma obra-prima. Entendem agora o que quero dizer?)

Invejo os que xingam o juiz por um pênalti não marcado mesmo depois que viram o replay e constataram que o atacante do seu time se jogou — cenicamente — na área. Invejo o evangélico de paletó que faz pregação — todo empolgado — no meio da praça. Invejo os que brigam e matam por um ideal — por mais torto, antiético e sem sentido que seja.

Meu balde de pipoca emocional, aquilo que costuma me mover com uma força que em tudo mais me é desconhecida, é a paixão. Quando me apaixono, quero o impossível que seja, mas quero; faço a besteira que for, mas faço. Não hesito, não vacilo. Sigo em frente. Entretanto, o que sobra de uma paixão? Desilusões, desfeitas, rompimentos... no máximo, algumas boas histórias para contar.

Esta crônica é outro exemplo. Neste domingo, não estou com vontade de escrever — o que é até raro. Mas em vez de me entregar a isso, de não escrever mesmo, de viver segundo essa ausência de vontade, o que faço? Escrevo. Não tenho constância no que quero nem no que não quero. Minha vida é curta, feita de momentos muito pequenos, de fragmentos que não se combinam. Sou uma bala ricocheteando sem atrito — e sem fim — num quarto vazio. Até aqui, tive o benefício da juventude. Mas até quando? Quanto tempo mais a vida parecerá estar se abrindo? E quando ela começar a fechar o cerco?

Terminarei feito uma crônica sem frase de efeito?

Comentários

Tia Monca disse…
Oi Junoca!

Como diria a Bina: Normal :o)
Um palpite: A vida é abundante e parecerá se abrir sempre....
Uma decisão na minha vida: Não parar de caminhar e buscar sempre o sol...
Desejo para você: Paixão pela vida.

Bj,
Tia Monca
Karine Rosa. disse…
Acho que todo mundo acaba passando por essa fase na vida. Espero que qualquer hora você consiga ver o que espera no seu futuro.

Beijos
leonardo marona disse…
"Minha vida é curta, feita de momentos muito pequenos, de fragmentos que não se combinam."

cara, acho que hoje, como raramente, estamos muito parecidos. isso faz eu me sentir menos sozinho, obrigado.

abraço do leo.
Se serve de consolo,é como estou me sentindo! Beijos.
Vinicius Silva Santos e Kahuan Luiz dos Santos Melo de Carvalho. disse…
A inveja de tudo fazer questão por nada.
Como entender o imcompreensivel?
Cheio de emoções que não querem sair, somente me consomem por dentro,
Como ver o futuro estando preso ao passado?
Como entender a perfeição? Sendo eu tão imperfeito.
Como terminar uma cronica sem frase de efeito?
Juliêta Barbosa disse…
Eduardo,

Haverá um tempo em que todas essas inquietações serão olhadas com complacência e placidez. Hoje, quando os arroubos da juventude já não me fazem companhia e um luar de prata, cisma em desenhar alguns fios brancos, em meus cabelos, sinto-me na plenitude da vida... É que, ao olhar para trás, eu vejo o quanto de vida perdi por coisas que, realmente, não tinham a menor importância. A melhor idade é aquela em que você já não se leva tão a sério e ao mesmo tempo, tem o discernimento e a sabedoria de continuar aprendendo... Carpe Diem!
Letti disse…
Edu querido, pois eu tenho uma crônica escrita - e não publicada - guardada por aqui, cujo título é "Tenho inveja dos que odeiam". Escrevi num dia assim (ao contrário de você, deve ter sido numa segunda-feira, rs) e depois, logo em seguida, num outro momento ela perdeu o sentido. E nem foi preciso me apaixonar, embora apaixonar-se seja preciso... *:)
Quando eu crescer quero ser assim, como você, sem hesitar e sem vacilar.
beijo grande, grande guri.
Anônimo disse…
Vc acabou de me (d)escrever...
bj
klaudya
Tia, você é a melhor. :)

Karine, grato pelo sopro de esperança. :)

Léo, Pensamentos soltos e Klaudya... mesmo barco, hein? Vamos remar então. :)

Caramba, Vinícius e Kahuan! Eu pensei que tivesse chegado ao fundo do poço. Grato por cavarem mais um pouquinho. :)

Juliêta, grato pelo alvo da "melhor idade". Vou apontar a flecha. :)

Claudia, tire a crônica da gaveta. O sentido passa, mas os textos são eternos. :) E onde é que tu quer chegar, mulher, crescendo ainda mais? :)
Marcos Afonso disse…
Amigo Eduardo!

Você me fez lembrar Fernando Pessoa:


maior que tu?
- Sê".

Grande abraço!

Marcos Afonso
Marcos, grato por me lembrar do meu também querido Pessoa. :)
Kika disse…
Ai Eduardo,
achei essa sua crônica bem corajosa. Isso sim.
Pelo menos eu, sinto que todo mundo tem tanta constância, tanto empenho, tanta força de vontade, que, vira e mexe, sinto-me de fora, por ser assim, um bocado "tanto faz"... Talvez você não seja tanto "tanto faz" assim, como eu. Mas me identifiquei com a inconstância.
beijos
Ana, acho que teremos que disputar uma corrida pra resolver essa parada. Quem chegar por último é o mais "tanto faz" inconstante dos dois. :)
Carla Dias disse…
Nossa... Acho que achei companhia para a minha história... rs. Entendo e compartilho. E desejo, dia desses, sair do círculo e gritar gol, ainda que a bola não encontre a rede.

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