quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A WOMAN LEFT LONELY >> Carla Dias >>

Foi logo quando comecei a estudar bateria, em 1986. Uma amiga das minhas tias, ao saber do meu ingresso no universo musical, perguntou se eu conhecia a Janis Joplin e, mediante uma negativa, me emprestou um LP.

Janis Joplin Forever, uma das antologias lançadas com hits da cantora, foi direto para o toca-discos. Na época, meu conhecimento musical se limitava ao que ouvira nas rádios que minha avó costumava escutar, quando eu ainda era menina e passava muito tempo com ela. Eram sambas e músicas caipiras e, de Cartola a Sérgio Reis, meu vocabulário musical foi composto durante muito tempo. Adolescente, comecei a acompanhar a carreira de alguns artistas através dos programas de auditório.

Fiquei em pé, de frente ao toca-discos, esperando para ouvir a cantora que a amiga das minhas tias dizia fazer com que a música ganhasse um encanto a mais. Porém, consegui ouvir somente alguns segundos depois que Janis Joplin começou a cantar. A voz da moça me soou tão estranha, mas de uma estranheza tão intensa que não sabia dizer se gostava ou não. E, desacostumada àquele tipo de inquietação, coloquei Janis Joplin na prateleira das cantoras que não sabia escutar e devolvi o LP.

A música, eu viria a saber mais tarde, era Summertime, composta por George Gershwin, contando com letra de DuBose Heyward e Ira Gershwin. Essa canção foi gravada por muitos artistas e as versões são muito interessantes. Na lista das versões que mais gosto estão a de Ella Fitzgerald e a de Jill Scott e George Benson.



Às vezes nos perguntamos para que serve o tempo a não ser para nos conceder rugas e aposentadoria. Não demorou muito para eu compreender a importância do tempo que passa, de como ele desenha os caminhos pelos quais nos enveredamos. Em 1989, comecei a tocar com a minha primeira banda e os músicos eram adeptos da cultura hippie. O que me soou, num primeiro momento, raspas do que vinha de um movimento que eu acreditava fosse somente americano, transformou-se em um baú de descobertas, e sem fronteiras, o que dirá nacionalidade. Foi nessa época que aprendi que nem sempre devemos apostar no que nos é entregue pronto, mas sim que precisamos desafiar até mesmo as primeiras impressões. Principalmente as primeiras impressões.

Não demorou e Janis Joplin foi parar no meu walkman. Despida dos pudores, muito mais aberta à diversidade do som das vozes e dos instrumentos musicais, e completamente apaixonada pela essência da geração Flower Power — e pelas batas, pelas calças bocas de sino, pelos hits dos Mutantes, pelos cabelos longos, pelo símbolo da paz... pelo desejo de alcançá-la... —, permiti-me vivenciar um apaixonamento. E o que julguei estranheza, num primeiro momento, o era mesmo, mas nem por isso deixava de ser bom. Percebi que a estranheza, assim como o estranhamento, conduziriam a minha biografia de forma autoral. Eu seria quem fosse, num momento qualquer.



Janis Joplin é uma das intérpretes que mais me emocionam. Já escrevi muitos poemas ouvindo a moça, assim como imaginei desfechos diversos para histórias ainda mais diversas, tendo-a como provedora da trilha sonora. Lembro-me do livro que devorei sobre sua vida, o Enterrada Viva (Buried Alive), escrito por Myra Friedman, com quem a cantora trabalhou durante boa parte de sua carreira. Foi quase desesperador acompanhar a vida de Janis naquelas páginas, pois apesar de tudo de negativo que se sabe sobre ela, sempre proveniente do uso intensivo de drogas, Myra nos mostra a infância, a genialidade de Janis Joplin que, casada à paixão e à profundidade com que a artista interpretava canções, com a intensidade com a qual dominava o palco, tornou-a única.

A menina que nasceu no Texas (EUA) e que lá era considerada um patinho feio, satirizada por não se vestir como uma garota deveria se vestir, desprezada por ter amigos negros. A menina das inquietações, com talentos diversos, assim como a incapacidade de se enquadrar em uma vida moldada. A mulher de solidão aguçada. Uma das cenas descritas no livro de Myra que sempre me volta em lembrança é quando Janis sobe na mesa do bar e canta, o coração em evidência. Janis Joplin nasceu para não durar muito.

Uma das suas interpretações que mais me inquietam, que me tocam profundamente, é a da canção composta por Dan Penn e Spooner Oldham. A Woman Left Lonely tem música e letra tão melancólicas quanto a biografia de Janis Joplin.






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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Carla... Lá vou eu ouvir Janis Joplin por sua causa. E olha que você nem é amiga de tia minha. :)

Carla Dias disse...

Eu sou suspeita, Eduardo, porque adoro Janis Joplin. Durante muito tempo fiquei sem ouvir os discos dela, mas conheci uma amiga de uma amiga, há algumas semanas, que achei tão parecida com Janis que me lembrei da cantora, da história dela e a admiração e a paixão voltaram. Agora, só dá Janis no player : )