sábado, 19 de setembro de 2009

O OUTRO [Sandra Paes]

Essa semana meus ouvidos ficaram vibrando em excesso o pronome Ele. Ele isso, ele aquilo, etc e tal.

Não sei quantas vezes devo ter ficado apenas no meu tradicional hum-hum, ouvindo e me perguntando um coisa básica: “Quem é o outro?”

Parece que virou um sintoma ou, quem sabe, um mistério, quiçá um abismo irresistível. Vi nos filmes os olhares adolescentes como que a descobrir esse ser, um dia encantador, outro desapontador. Vi no olhar da esposa um vazio tentando encontrar um fio que fosse de uma meada qualquer para desnovelar o nó que se punha diante de sua mente ao constatar alguma coisa que não ressoava bem.

Ah! As ressonâncias... Que gongos são esses que tocam em nossos ouvidos e nos fazem ter aquele arrepio de algo desafinado como se nossa alma fosse um diapasão que sabe exatamente o tom da melodia das danças de uma relação harmoniosa?

Quanto mais o tempo passa, mais confirmo a hipótese que o outro é mesmo um infindável mistério. A maioria de nós se perde no labirinto quase que infinito da tentativa de desnudar o outro. Grande parte nem quer saber. Apenas se queda ali, prostrada, rendida a um outro tipo de encanto que fascinantemente a mantém refém de algo que quase nunca se revela.

As novelas gastam seu tempo de enredo sempre em torno de, mais uma vez, desvelar um outro, aqui, alhures. E as pessoas continuam nessa saga, com enredos repetidos milhares de vezes, e nada aprendem com os livros, as tantas narrativas já documentadas, as peças montadas, as histórias contadas, os ditos dos mais velhos experientes a aconselhar em vão. Sim, pois, parece, encontrar e desvendar o outro é tarefa única. Cada um vai um dia fazer sua jornada pessoal nesse ritual de passagem com altíssimo índice de reprovação.

Dia desses falei com um jovem rapaz que estava tentando se recuperar da primeira experiência de coração partido. Se referia a tal relação com desolo, como que a pedir que a nova experiência pudesse ser bem sucedida, como se isso tivesse uma medida padrão possível, e, uma vez aprendida, nada mais de dores e derrotas ou o sentimento de.

E o que mede mesmo isso? O que será que cada um de nós inventa sobre o outro e pendura numa lista invisível de possibilidades como um jogo de loteria que carrega o segredo dos números vencedores? Como se fosse apenas possível que fôssemos o sorteado vitorioso? Sim, por que o encantamento que tecemos em torno do outro, quando ousamos pensar e sentir que o conhecemos, nos traz aquela sensação de ter ganho na loteria. Na verdade, acertar os números é uma pequena metáfora diante dessa voluptuosa sensaçao de “eu o ganhei”. Mais sinalizando de fato que colocamos esse alguém em uma moldura preciosa e ali o temos, mais na nossa imaginaçao que na realidade.

Pois o tempo, esse predador de todas as ledas posses, trata de ir desfazendo nosso prêmio, ou melhor, trata de nos colocar contra o muro dos equívocos e revelar de forma contundente que é mais fácil reconhecer: “não sei quem é esse aí”. Agora ele é realmente promovido a esse outro. Se nos propusermos a vasculhar o caderno da memória e das vivências, depois de termos passado quase que timidamente pela canção "Eu sou a outra na vida dele", percebemos de fato que, quando somos o outro, parece incomodar menos do que quando alguém se torna “aquele outro”.

O atestado de ignoro sua existêcia, um pedaço de papel invisível pra muitos, mas muito claro para quem o carrega na carteira como um documento ou um diploma na parede, inaugura uma coleçao diferente: a coleção de nossas perdas. E, catastróficamente, ele vira “falecido”, inimigo mortal, extraterrestre, excomungado... para não desfilar outros nomes mais usuais. Tudo isso guardado muito perto do escaninho da ignorância. Ali, bem ali naquele cantinho da mente ficam arquivadas as perdas não contabilizáveis. E o outro vai para lá. Com certeza.

Aceitamos perder na loteria, quase que naturalmente. Aceitamos perder o ônibus ou o táxi no dia de chuva. Lutamos para nao sofrermos com a perda de aplicações ou até mesmo de um telefone celular. Mas perder aquele que “foi nosso”, ah!, isso jamais. Pois exigiria um enorme estudo de nossa incapacidade de decifrar o outro.

Se não me sei, como saber quem es tu? E é nessa dança que a vida parece seguir. Imagine países densamente povoados como a China ou o Japão. Não dá pra viver sem o outro por que milhares deles fazem parte de nosso passo.

Agora saltando para um deserto, sim, aquela paisagem com dunas de areias, pouco habitadas de humanos onde alguém é algo raro. Como é o outro nessa área? Quem é o vizinho daquela fazenda lá longe?

Me dou conta que estou num prédio cheio de gaiolinhas e nada sei sobre os outros moradores. Nem eles de mim. Não, não chamo a isso solidão. Solidão é aquela sensação esquisita quando quem costuma dormir ao seu lado, um dia, ao virar de lado se torna um estranho. E nesse momento cru, constatar isso é quase cruel. Faz parte dos mistérios entre eu e o outro. Ou não? Fica registrado em algum cluster quase que de forma indelével, que não há reparo possível para essa descoberta. Eu acho que conheço o outro. Ele, não sei se me descobriu ou se encantou com algo que jamais saberei. E daí? Constatar que ele virou um estranho é no mínimo complicado de encarar. Como ficar com um estranho? O que fazer com a descoberta que ele não é quem eu pensava que fosse?

Inventamos ditados fatais como “cristal quebrado não se emenda” e ficamos com esse tipo de crença a guiar o sinal do abismo onde não queremos cair, ou a armadilha onde jamais poremos o pé. Mas a vida mostra que não é assim. Afinal, nossa percepção é quase sempre falha e mutável, e, evidentemente, nossa visão de tudo também.

Só não sei de onde vem o absolutismo de nossa percepção infalível, quase sempre usada com rigor nos depoimentos e posta a prova nos tribunais — esse espetáculo ainda vigente pra promover nossas fraquezas e escorregadas diante da lei dos homens.

Quantas gerações, quantas tropeçadas, quantas cabeças quebradas, quantos corações doídos, apenas pra um dia podermos ver que o outro, por vezes um suspeito, por vezes uma testemunha, por tantas outras apenas um passante, é exatamente como nós: mortal e falivel em suas crenças, percepçöes, atitudes e falas. Ainda assim, um bom exercício para o orgulho, a vaidade, o sonho e a desilusão. Enquanto ainda investimos em imagens, ícones vários, aparências fabricadas e tantos espelhos que só possam refletir nosso brilho e não sobra território para a exposição do ser.

Esse, sem rótulos, sem etiquetas e na maioria das vezes anônimo, só mostra sua face em pequenos intervalos de silêncio, pura contemplação, e nenhum juízo. Levamos anos, talvez vidas, pra descobrir de forma simples que o outro é um conjugado de nós mesmos. E tudo isso apenas pra se saber onde por o próprio eu. Onde mesmo?

Coube muito bem aqui, no travesseiro, segundos antes de apagar a luz desse corredor cheio de pensamentos, e se dissolver com o sono.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Parabéns, Sandra! Um verdadeiro tratado sobre a alteridade. :)