Pular para o conteúdo principal

QUEM TIVER OLHOS... >> Eduardo Loureiro Jr.

Eduardo Loureiro Jr. / Praia do Paraíso - CEAh, esse nosso olho que vê o mundo mas não vê a si mesmo. E que ainda pensa que se vê quando se olha no espelho.

"O essencial é invisível aos olhos", escreveu certa vez o Exupéry. Por vezes, fechamos os olhos e enxergamos tudo. O ser é visível ao olhar. Mas o ser não se resume ao corpo, tampouco o olhar aos olhos.

Somos capazes de ver, ao vivo, o que acontece nos lugares mais distantes do mundo. Basta sentar em frente a uma televisão. Mas estamos desprovidos de aparelhos para o caso de querermos ver, também ao vivo, o que acontece no lugar mais íntimo do mundo: nosso próprio ser.

Uma amiga escritora falou que não sabia que profissão atribuir à personagem principal do novo livro que estava escrevendo. Eu brinquei com ela:
— Qual a idade da personagem?
— Cinquenta e poucos anos.
— Com essa idade, acho que ela já é capaz de dizer pra você qual é a profissão dela, caso você pergunte.

O ser que sou possivelmente responderia a perguntas também, mas o ser que penso parece não estar muito interessado: prefere ficar imaginando a ter certeza.

Eu quero saber a minha cor, ou cores. Quero saber do meu movimento. Onde termino eu e onde começa o outro? Qual a cor, ou cores, dos outros?

Já imaginaram olhar para uma pessoa e ver os pensamentos dela? Ver fumacinha saindo da cabeça de uma pessoa que está com raiva mesmo se ela for uma mestra na arte de esconder o que sente? Testemunhar a luz fugindo do próprio corpo numa situação de medo?

As coisas estão acontecendo a todo momento e nós só vemos corpos e objetos. Perdemos os anjos que cruzam o céu — talvez até boiando de costas. Não damos pelos beijos que as pessoas trocam só com os olhares. Desperdiçamos os arabescos do vento. Quanta coisa sem ser vista!

Deve ser estranho, para os seres imateriais, passarem despercebidos. Quem me assegura que não há aqui, ao lado do computador, uma fadinha trocando de roupa — de luz — completamente despreocupada: "O Eduardo não está nem vendo mesmo."

Ah, nossas vidinhas privadas, escondidas. O banheirinho, a paredinha, a portinha, a chavinha, a roupinha, o corpinho. Somos crianças brincando de desaparecer debaixo de um lençol. Quem está além do lençol continua nos vendo, nós é que nos tornamos cegos para a presença deles.

Como sou cego de meus leitores! Que sei deles? Um pouco, quase nada, pelos comentários que fazem. Mas da maioria deles não conheço o buraco da fechadura da porta do corpo: o sorriso. E em que medida também me revelo? Será que minhas palavras não são apenas roupa barata, folha de parreira cobrindo as vergonhas?

O cego é, antes de tudo, cego de si mesmo. E cega os outros de si. Quem se arrisca ainda, feito namoradeira, a se pendurar nas janelas da alma, vendo e sendo visto? É divertido ver um grupinho pequeno preso dentro de uma casa monitorada por não sei quantas câmeras? Sim, é divertido. E não seria ainda mais divertido permitir que imagens de si se tornassem públicas? Que importaria se ela soubesse que a saudade em mim vai crescendo? E se ele soubesse que eu leio seu belo livro de poesias enquanto faço cocô? E se ela soubesse que me incomoda sua fala prolixa mas que, vez por outra, me dá vontade de calar sua boca com um beijo? E se ele soubesse que tenho ciúme de sua mulher e filho, e gostaria de tê-lo amigo dias sem fim? E se ela soubesse que o seu sorriso, embaixo de seu chapéu, salvou um dia que corria o risco de estar perdido? E se ele soubesse que eu desconfio que ele está apaixonado por mim? E se ela soubesse que é tão parecida com a mulher que amei um dia que eu gostaria muito de poder abraçá-la de vez em quando, sem nenhuma segunda intenção?

Ah, seria tanta luz que só fechando os olhos. E foi isso que fizemos: fechamos os olhos. Mas a luz que tiramos daqui continua lá, atrás do lençol dos olhos. E eu quero, eu quero, eu quero enxergar.



Comentários

Anônimo disse…
Quer enxergar, meu amor? Eu também! Faz tempo que pelejo pra tirar as remelas dos olhos de meu coração pra sentir o outro e eu, com realidade, sem plágio, pela fina divina luz.
Um dos efeitos dessa luz em mim é ver beleza no que escreve e que você já enxerga alguma coisa: que precisa enxergar. Eu também!
Encantada, encantador!
Abraço,
Maria
Juliêta Barbosa disse…
“Quem se arrisca ainda, feito namoradeira, a se pendurar nas janelas da alma, vendo e sendo visto?”
Quem não tem medo da felicidade e sabe que correr risco faz parte do processo.
Anônimo disse…
Que lindo texto... obrigada por fazer minhas segundas tão felizes... com todo respeito ao seu momento de casar ou não casar preciso dizer que ainda acho que estou me apaixonando por você, e peço licença pra viver isso aqui do outro lado de um outro computador... assim te vendo de olhinhos fechados... obrigada por me fazer sentir tudo isso em pleno início de semana e trabalho. Fica com Deus!
cArLa disse…
Engraçado, eu também sempre me pergunto como eu devo ser por detrás do lençol. Como gostaria de me ver, me enxergar e, finalmente, me conhecer.
Viu só como suas palavras não são folhas de parreira? Elas não escondem, ao contrário, deixam à mostra.:)
Maria, adorei as remelas. :) Grato por se encantar.

Juliêta, fiquei feliz de você ter citado justamente o meu trecho preferido da crônica. :)

Querida Anônima, paixões — até mesmo as mais infelizes — costumam trazer importantes transformações para nossas vidas. Não sou eu quem deve dar ou deixar de dar licença para que você viva essa aventura de transformação. Fico feliz por minhas palavras tocarem você. E peço a Deus, com o qual você me abençoou, que eu consiga fazer bom uso desse instrumento tão poderoso que é a palavra.

cArLa, grato por ter me dado a esperança de que estou nos inícios do Paraíso, antes da vergonha. :) Um dia vamos (nos) enxergar.
Anônimo disse…
Vim "nadando" pela net e cheguei até este oceano de palavras.
Cara, vc é muito bom!
Virei sua fã.

Klaudya
otacílio nétto disse…
do ar do pátio...
você me encanta com estas poesias que insiste em tecer no artesanato das crônicas...
não importa...estes exercícios semanais de beleza que você nos oferece, assim, generosamente...como sorrisos furtivos, como caixa de prazeirosas brincadeiras pela vida afora...
cerrar os olhos e enxergar - isso me remete em absoluto às experiências do mestre gabriel...
quantos anjinhos, anjões, anjos apenas, a passar por aqui, por aí
diariamente, todo o tempo, e nós, como nós de visão, não vemos...
tenho que lhe ser grato e reconhecer o prazer que o teu talento transformado em crônica, digo poesia, provoca em seu amigo.
é tanta beleza que fico intimidado em te mandar ums textos meus para sua olhadela...
abraço
ota
Uau, fiquei lisonjeado com tão belas palavras. Meu caro Ota, você comprova uma teoria que tenho, a de que as melhores palavras vêm do silêncio. :) Grato,
Carla Dias disse…
Eduardo... Essa é uma das coisas que temo, mas desejo. Que me olhem desse jeito, sem cortinas. Que eu possa olhar de volta desse jeito: sem rótulos. Que as máscaras caiam, as zonas de conforto endoideçam e se mandem e que reste somente esse olhar cru e honesto. Dia desses, quem sabe...
Dia desses, Carla. Eu sei e você sabe. :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …