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O BOLO >> Ana Coutinho

Ela era uma tia-avó de quem eu gostava muito. Era uma velhinha e eu, uma criança. Lembro-me dessa senhora, sempre magrinha, sempre com vestidos de flores miúdas, sempre com as costas um pouco curvadas. Para mim, ela tinha nascido daquele jeito. Nunca tinha sido criança, nunca tinha sido jovem, nunca, nunquinha tinha tido 13 anos como eu. Até os velhos a chamavam de tia. Ela era a Tia Biela e, se todos a chamavam assim, decerto esse era o seu nome completo.

Tia Biela era sozinha. O marido morreu muito jovem e o único filho também, pouco tempo depois. Eu mesma duvidava que essas pessoas tivessem existido. Via os álbuns cinzas, tão desbotados. Sempre uma foto dela com as irmãs em uma cachoeira. Dizia que aquela foto era da juventude dela. Mas, com aquele desbotamento todo, eu ficava intrigada que, na foto, ela estivesse igual a hoje, ao vivo, ali na minha frente. Mais uma confirmação: Tia Biela nascera assim...

E as nossas visitas semanais a ela tornaram-se tão habituais que eu nem questionava se tinha mesmo vontade de ir. Íamos, simplesmente. Eu e minha mãe, caladas, no carro, até que estacionávamos na ruazinha e o zelador já vinha falar conosco. Ele passava um relatório de amenidades para a minha mãe. Dizia se a tia estava bem, se ele a vira naquela semana, se pagara o condomínio, ou qualquer coisa assim. Subíamos no elevador antigo de um prédio antiquíssimo, e ela nos recebia com um meio sorriso. Sempre ansiosa, enquanto sentávamos ela ia até o fundo do corredor, abria o armário e tirava uma caixa de BIS, fechadinha, inteira para mim. Era a minha alegria. Eu segurava aquele BIS, como seguro hoje na Corello uma sandália caramelo, linda. Com a diferença de que o BIS já era o meu, enquanto a sandália eu só finjo que é, por alguns minutos, justamente para lembrar-me da alegria fugaz que a Tia Biela me proporcionava.

As visitas eram sempre absolutamente iguais, até aquele dia.

Era aniversário dela e eu estava em casa. A minha mãe ligou, falou parabéns e depois passou o dia dizendo que devia ir lá, visitá-la, mas tinha isso pra fazer, aquilo outro e estava tão cansada, enfim. Ainda era dia quando ela foi ao meu quarto e disse: “Ah Kika, vamos lá, sim. Tadinha, é tão sozinha a Tia Biela, a gente faz uma visitinha rápida e vai embora....” Eu não hesitei. Calcei meus tênis e fomos. Tudo estava como de hábito até ela abrir a porta. Tia Biela sorriu o seu sorriso cotidiano; tão curvada com seus sapatinhos baixos e o cabelo arrumado para trás. Ela nos chamou para entrar, e foi ao darmos o primeiro passo dentro da casa que notamos: a mesa estava posta. Alguns pratinhos, de louça branca, talheres e guardanapos intactos sobre a toalha rosa. Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa, Tia Biela se justificou: “Ah, eu tinha feito um bolinho, achei que alguém pudesse vir, mas acabei de guardar na geladeira, vou pegar, peraí, sentem, sentem”. Enquanto nos ajeitávamos no sofá velho, nos entreolhamos e eu me dei conta, pela primeira vez na vida, do que era ser sozinha. Isso não era só uma frase, não era uma constatação, era uma realidade tão dura e cruel que cheguei a sentir uma pontada fina no estômago enquanto fazia força para segurar o meu pedaço de bolo. Tia Biela serviu-nos o primeiro pedaço de seu bolo de chocolate caseiro.

Eu a imaginei passando esse dia, enquanto preparava a própria festa. Ela passara a manhã preparando um bolo, enfeitou a sua casa com toda dedicação e carinho, encheu o seu tempo vazio de uma rara alegria enquanto arrumava a toalha, lavava a louça já em desuso, preparava o bolo com cuidado e atenção. Ainda com as costas curvadas, ainda com passos curtos e lentos, a Tia Biela dedicara seu dia aos seus, que certamente não tardariam a chegar. Acontece que ninguém chegou. E nós, eu e a minha mãe, quase não fomos. Por pouco ela teria de dar o bolo pro porteiro, jogá-lo no lixo ou assisti-lo apodrecer por dias seguidos, diante de si, como que vendo seu próprio tempo esvair-se de si mesma...

Ficamos lá por pouco tempo, mas dedicamos a ela o que tínhamos de melhor. Escutamos tudo com atenção redobrada, sorrimos o nosso melhor sorriso, dedicamos o que não sabíamos dizer, o que não poderíamos fazer. A vida era injusta e eu levara 13 anos pra descobrir isso.

Aquele instante tão curto, efêmero, havia feito alguma coisa dentro de mim. Compartilhar aquele momento simples, tolo quase, foi para mim uma das experiências mais significativas de toda a minha vida. Nem o primeiro beijo, nem olhar-me de noiva no espelho, nem a torre Eiffel brilhando com luzes de Natal... Nenhuma lembrança me emociona tanto quanto a mesa da Tia Biela, a toalha rosa coberta pela sua melhor louça, seu meio sorriso disfarçando a decepção — não de uma tarde, mas de uma vida inteira.

No caminho da volta, a idéia de que quase não fomos me corroía por dentro. E, tendo experimentado um bolo de chocolate tão delicioso, eu ainda não conseguia entender por que tinha ficado com aquele gosto tão amargo na boca...

Comentários

Anônimo disse…
Puxa vida... que texto lindo! não consigo conter as lágrimas... maravilhosamente triste e belo!!!
Ana, entre a solidão de Tia Biela e o amargo na sua boca, o que mais me chamou a atenção foi a grandeza sem estardalhaço de sua mãe. Que grande mulher! E que belo texto!
Bia disse…
Lembrei-me da minha vovozinha. Tenho que visitá-la mais vezes....
Lindo texto, amiga.

Beijos!!
cArLa disse…
Texto lindo e tão triste. Quantas vezes deixamos as tias Bielas das nossas vidas esperando...
Joana disse…
Meu avô dizia que envelhecer é ficar só. Os mais velhos se vão, contemporâneos igualmente partem, os filhos crescem e inevitavelmente ocupam por demais o tempo que agora nos sobra. O dia tem mais horas pois dorme-se menos, trabalha-se menos, temos mais ócio pra sentir falta dos que estão porém ausentes. Pôr a mesa, bater e confeitar o bolo certamente ajudaram tia Biela a perder a conta das horas de espera pelos que não foram, mas vocês, salvaram o dia! Lindo!
Debora Bottcher disse…
Valha-me... Que texto! Também eu acabei me emocionado... A vida às vezes é tão injusta, não? Mas ainda bem que existem pessoas como a sua mãe, essa 'moça' sempre tão querida... E vc... :)
Um beijo.
Ana, eu também tive a mesma sensação do Eduardo e da Debora. Sua mãe é uma grande Mulher e conseguiu despertar sua sensibilidade para uma situação tão real e tão cruel...
Juliêta Barbosa disse…
Ana,
Quando as palavras são pobres para descrever uma emoção, as lágrimas falam a linguagem da beleza que se ouviu. Belo texto. Parabéns!
Juliêta Barbosa disse…
Ana,
Quando as palavras são pobres para descrever uma emoção, as lágrimas falam a linguagem da beleza que se ouviu. Belo texto. Parabéns!
Anônimo disse…
Lindo texto.
Inevitável conter as lágrimas...
Parabéns!

Silvana
Alice disse…
Kika,

eu sou Alice filha da Yara, afilhada da Ana Lúcia e neta de Adorama F. da Rosa e Luis Darcio correa Silva

Adorei seu blog e da cronica da tia biela "Gabriela"

vou dizer au meu professor de Português Filipe Nassar de seu blog e para ele acessalo para ver as suas lindas coisas de escrita

vc esta de parabens

beijão de sua prima
Alice Sousa 11/fev/2009

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