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SAI DA FRENTE QUE ATRÁS VEM GENTE >> Ana Coutinho >>

Eu estava fazendo compras de Natal quando percebi. Enquanto a vendedora ia me trazendo os modelos de biquínis, senti uma estranheza nela, mas não sabia ainda o que era. A menina tinha uma pele muito lisa, grandes olhos azuis e algumas sardas na bochecha bronzeada. A voz dela era muito particular, uma voz fina, bastante infantilizada e foi aí que dei conta: eu estava diante de uma criança. Tomei um susto inicialmente, mas disfarcei. Não era à toa que ela me trazia os modelos maiores, com as laterais mais larguinhas e comportadas, claro, eu era uma velha, seria uma ousadia pedir um biquíni de lacinho, nem sei por que não pedi um maiô preto de uma vez por todas. Resolvi experimentar as peças e entrei no provador, me refazendo discretamente do choque. Quantos anos aquela menina tinha? 18? 19? Meu Deus, são adultos esses que recém-nasceram pouco antes do novo milênio que acabou de começar? Lembrei-me, na hora, de uma brincadeira da minha infância – do século passado – em que as crianças que vinham correndo gritavam para as mais lerdinhas: “Sai da frente que atrás vem gente!”. Nossa, como correram esses jovens. Eu devo ter sido derrubada mais de uma vez, lerda do jeito que sou, nem sei como foi que me levantei... O passar dessa raposa, a quem chamamos de tempo, é quase que uma piada. Uma enorme gozação. Não nos damos conta de que os anos estão se esvaindo, escorrendo por entre nossas mãos frouxas e calejadas. O tempo, ah, o tempo. Que grande vilão ele se tornou. Olhei-me no espelho luminoso do provador. Não havia dúvidas, os biquínis de lacinhos já estavam proibidos há algum tempo. As tirinhas, essas apertadas, são crimes bárbaros, como a legislação não fala nada a respeito? Olhei de relance a criança que me trazia mais um modelo – dessa vez inteiro em preto –, sorridente, cheia de si. Ah, ela não sabia, coitada. Quase que senti pena da menina. Porque me vi ali, nos olhos dela. Eu também fui uma menina cheia de vida, cheia de encantos, magra e insatisfeita com tudo o que a vida me dava absolutamente de graça. Era grátis aquela pele, era grátis o corpitcho, era grátis a agilidade, eram grátis todos aqueles dias longos, horas compridas enquanto eu assistia à novela das 6, depois à das 7, pulava pra outro canal no jornal e, então, voltava para pegar a das 8. Era grátis a alegria ingênua, quase que tola, das amigas que riam sem parar por uma noite inteira, trancadas num quarto qualquer, enquanto falavam de meninos ridículos que eram príncipes aos nossos olhos de plebéias. Era grátis tudo o que hoje me sai por um preço - muitas vezes - bastante salgado. Hoje, custa-me manter a balança abaixo dos 60, custa-me correr até a esquina, custa-me subir dois lances de escada, custa-me até o prazer. Sim, o prazer, esse bicho fugaz e efêmero que já foi até um pouco inconveniente, fora de hora e propósito, agora pede-me um dia calmo, pede horas tranqüilas e a cabeça vazia, para então - talvez - dar o ar da graça. Aquilo que era prêmio virou castigo. O sol, de grande amigo passou a bandido. E eu que ficava horas e horas deitada, pensando na vida e passando óleo enquanto rachava debaixo do sol do meio-dia. Óleo, vejam o pecado. Hoje, óleo é crime inafiançável. Nem sei se é permitido vender isso ainda, deve ficar na prateleira dos fuzis de guerra, claro. A menina me observava pela fresta e arriscou palpitar: “O preto ficou lindo!”. Ela disse genuinamente. O preto era mesmo a melhor opção. Peguei sem pestanejar e, quando disse adeus àquela jovem criança, o mundo já me parecia diferente. Não que seja triste ou penoso, ao contrário. Sei que há mais para se ver, há mais de nós mesmos por dentro das nossas roupas, e agora eu sei como o tempo, esse danado, embora nos tire os biquínis estampados de lacinhos, nos oferece os pretos acompanhados de um chapéu de palha, entre algumas outras gentilezas que essa velha raposa ainda nos oferece se mantivermos os olhos atentos...

Comentários

Ana, que você faça da raposa-tempo seu bicho de estimação. :) Gostei das palavras em um só parágrafo: deu a sensação de rolo-compressor do tempo.
Ana, adorei! Você tem uma percepção tão clara das situações do cotidiano! E o mais impressionante é como você consegue transmitir isso de forma dinâmica e agradável a seus leitores. :)
cArLa disse…
Ana, você sempre me lembra de tudo que eu finjo não saber! Ainda bem que vc faz de maneira inteligente e bem-humorada!:)
Anônimo disse…
Que texto maravilhoso... me senti assim dias atrás também comprando biquini, mas levei o de lacinho!!!
Katy disse…
Adorei o texto, muito bom!
mas da próxima vez, leva o de lacinho. E o chapéu de palha também! Os dois juntos!

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