sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

É mesmo algo muito raro >> Leonardo Marona

Eu queria ao menos por uma vez ser coerente. Dizer sem pecado as belezas do mundo. Queria ver as cores cada uma no seu lugar. E que o sangue não me assustasse tanto. Queria sentir prazer em acordar dormir acordar levantar deitar segurar a ampulheta virada para baixo. Eu queria que o sol me dissesse qualquer coisa de “continuemos então de mãos dadas”. Que a poesia recolhesse meus órgãos para um local seguro, longe do monstro sem forma que me apedreja. Ah, como eu gostaria, por um dia, uma hora, tratar os seres humanos como iguais e amar a mim mesmo tanto que seria possível gostar de um igual a mim. Mas o mundo exige certa dose de brutalidade. É algo estritamente necessário para a separação dos grãos. Com um metro e setenta de altura, segundo o laudo militar, minhas chances são tão ínfimas quanto as de Napoleão. Mas só de ver e sorrir por simplesmente estar vendo, apenas reagir às manifestações da terra como se tudo fosse importante e estivesse no seu devido lugar, “ver por outro prisma”, apenas romper com a idéia preconcebida ainda dentro do cerne. Queria finalmente olhar, e ver. Ver tudo e não esperar nada porque estaria vendo realmente tudo, mas, moralmente, a idéia de não esperar nada me assusta e me aproxima de cometer uma atitude qualquer impensada. Queria, queria, queria. De que adianta falar que adoraria provar a doçura de cada pessoa, lamber os dedos que tocaram o favo e dar de provar da substância a qualquer um? De que adiantaria mais essa interrogação? Queria, sim, queria olhar para vocês e não precisar escrever nada, pensar em vocês como página branca mais bonita. Queria um texto branco para ninar meu pavor de continuar com essas perguntas vazias e essa adolescente insubordinação. Mas estou perdendo a batalha, sinto-me cada vez mais como qualquer um. Apenas não me esqueci. A memória é o que nos impede de aceitar totalmente. E tenho um repentino ímpeto de pular da cadeira, vestir a calça mais velha, entrar no primeiro boteco e olhar a todos nos olhos e que nesse único movimento todos os órgãos transbordassem por dentro de cada corpo. E as doenças seriam bem-vindas e os aleijados e os mal-cheirosos e até mesmo os crápulas incorrigíveis abraçariam a mesma causa. Que comoção seria a tomada das ruas, os chocalhos nas mãos das crianças e as bebidas divididas por pessoas que pela primeira vez se olhassem. Mas, em vez disso, a confusão da sensibilidade leva à propagação da dor. E nas ruas ninguém se olha, mas todos esperam algo de algum lugar. Um meteoro, um dilúvio, qualquer coisa que as faça sacudir a carcaça para aceitar mais. E esperando envelhecemos distantes uns dos outros. E velhos nos tornamos cada vez mais parecidos. As crenças vão se transmutando em horríveis carrancas, as expectativas cada vez mais ácidas e menos humanas. Vivemos as cascatas de uma troca de pele inédita. Queria a doçura, de fato, queria a poesia funda de alguém que respirasse mais alto. Mas os ídolos envelheceram e representam o outro lado. Estamos sozinhos e procuramos ajuda em pleno sol. Corpos em chamas que não chamam atenção. São dúvidas que não serão respondidas, a carne dura do tempo achatado por hipóteses remotas. E vivemos às custas dos que possuem tudo e não têm nada. E nem mesmo a língua pátria está mais do nosso lado. Acabaram com os acentos, os pontos hesitantes, os travessões intransponíveis, as vírgulas lispectorianas. É um tempo duro de notícias temerosas e praias cheias. Nossas pernas agüentam ainda mil quilômetros, mas temos um buraco no peito, que não é tuberculose, não é amor ferido, não é piedade, não são leituras equivocadas ou buscas rudimentares. Existe um desaparecimento ao lado de cada um. Aos delicados, deve-se dizer: cuidado! A poesia não é mais a poesia que salva uma vida. A poesia agora quer tomar o espaço da vida. Já tomou. É mesmo algo muito raro não se perder a ternura.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Léo... Essa ficou no pontinho que eu gosto. :) Muito bom esse equilibrismo entre utopia e apocalipse.

Juliêta Barbosa disse...

Ah, Léo, entre a utopia e o apocalipse, existe o mundo real, e ele nos pede que façamos a nossa parte. Um pouco de doçura aqui, uma ternura escondida alí e podemos transformar o mundo com nossos pequenos gestos. Será isso, utópico também? Acredito que a tentativa ainda é melhor do que cruzar os braços e ver o circo pegar fogo.