sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A PREPARAÇÃO >> Leonardo Marona

Apenas vinhos baratos, por uma ressaca fraterna. Muito deve estar relacionado à forma com que um se acomoda de frente para a fera sedenta. Sim, é fundamental ajustar o espírito para receber a luz forte. Abrir as janelas, ouvir o som de lá fora, tentar capturar as nuances que se acumulam e se atropelam. Dar uma ou duas voltas pelo ambiente, tocar objetos de vidro e de metal, sentir o frio se comportar diante da pele ainda confusa, administrar a ansiedade em desenvolver pirâmides.

Que se pode fazer senão preparar o corpo, não sentar agora, tomar um copo de seja o que for, entrar em conexão com o movimento torrencial, alimentar com qualquer substância levemente venenosa o corpo, adaptá-lo ao leve, muito leve cinismo criador?

Recuar tantas vezes quantas necessárias também pode engrandecer a sujeição às idéias ainda soltas num pequeno espaço sem luz, mas cheio de calor. As janelas ainda abertas. Um calor insuportável e as plantas paradas. O som dos carros que passam pela avenida comporta uma solidão de ultraje. Os seres invertebrados da noite parecem tão felizes...

As reticências de repente assustam. Há que se ajeitar perante o assento. Barbaridade essa barba grossa, esse cabelo desgrenhado. As pernas doem, o corpo reclama em qualquer língua ancestral. Ainda mais essa repentina sensação constrangedora de faltar um Quê imprescindível. Buscar esse Quê. Vale a pena abrir as gavetas? Tudo vale a pena... Destino mais enfadonho. O de tudo valer a pena. A sensação de ser lhama da montanha gelada serve apenas para acalentar o espírito. Conhaque também. Preparar o cinzeiro, limpar as cinzas mais antigas, trazer o aparador para o charuto enrolado num excelente país escravocrata, almofadas para o assento, que por baixo se começa a pensar.

Sim, estalar os dedos um no outro, Get out of town, todos de repente, todos os dedos, roídos e sem digitais bem-definidas, todos assim sobre a mesa, abrir enfim uma garrafa, talvez seja mesmo a hora, o tic tac, tic tac, tic tac do relógio, um momento, isso não é Machado de Assis! Que dedos horríveis, pobres coitados, dedos em pânico. Cada vez mais reticente... Importantíssimo enterrar os mortos, deixá-los com sabedoria de pasto. Mas é inevitável e perfeitamente ordinária a conclusão de que talvez um belo bico de pena ajudasse em qualquer petição poética.

Carregar por que a tinta dos infelizes? Nada disso, com um bom preparo atinge-se a excelência. Frieza, e avante! Sente-se, cuidado com a postura, deixa a máquina rodar seus eixos, deixa a fúria tomar corpo. Um gole a mais ou a menos, que há de fazer contra? O principal é traçar um objetivo claro. Realizar devidamente a tarefa e recuperar a esperança das massas. Está tudo pronto, a favor de uma dialética proveitosa. Como comecei mesmo isso aqui? Era uma frase bonita. Meio sem sentido. Mas bonita. Apenas vinhos baratos, por uma ressaca fraterna. Pois muito bem. Tantas voltas para chegar de novo a isso? Ó palavras desconexas, por que nos acompanhais por becos tão sólidos e abstratos? A cabeça ereta contra o encosto reclinável, por favor, endireite essa postura, estale os dedos, deixe Julie London soltar sua voz de branca sem preconceito, e então o que dizer mais, o que dizer?


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2 comentários:

cArLa disse...

Palavras desconexas às vezes criam arte, não? :)

Marisa Nascimento disse...

Léo, o leitor é que precisa de uma preparação para tanta perfeição na escolha das palavras e no encaixe perfeito do começo ao fim do seu texto. :)