sábado, 17 de janeiro de 2009

PELA CASA, PELA MEMÓRIA [Ana M. M. González]

Ele entrava pelos cantos todos e hoje viaja pelos túneis de minha memória. Era um cheiro, um aroma forte e bom. Quente. Saía dos muitos pães doces que se inventavam todos os finais de ano. Para mim, ele começava antes, quando minha avó se punha a amassar a farinha com a receita tradicional da família. Eu já adivinhava que ele estaria a dançar junto com a música e todo o movimento que se daria pela casa. Era um cenário completo, com sonoplastia e personagens. Castanholas e solados de vozes nas canções típicas e populares, selecionadas pela tia de cabelos alourados. Os elementos dessa narrativa não precisavam mudar.

Depois dessa faina de organizar as mesas e amassar os ingredientes, os pães iam para o forno. Alguns para o forno da cozinha. A maioria para a padaria do bairro, cujo dono emprestava grandes assadeiras, onde eram arrumados os pães por assar. Quantas? Não sei, não saberia dizer, porque meus olhos de criança se distraíam em meio à multiplicação dos pães, enfileirados pouco a pouco nas mesas da cozinha e da copa, com minha avó a formar as tranças para adultos e bonecos para os netos. Bonecos e tranças eram pincelados com gema de ovo e salpicados com açúcar cristal por último. Depois desses ingredientes prosaicos eles se transformavam. Voltavam do forno quentes e dourados, com muitos brilhos. Coisas do tempo do forno. Coisas da avó.

A massa continha erva-doce, os pequenos bonecos levavam uvas-passa no umbigo e nos olhos. Eram feitos para os netos, em número certo, dez ao todo. Carregavam dentro da massa o carinho que a avó punha em todas as fornadas. Os amigos que visitavam a casa sempre saíam com esse presente possivelmente desejado o ano inteiro. Era reinstalada a cada ano essa tradição do avô que, orgulhoso de sua posição na comunidade espanhola, fazia o papel político de boa acolhida das visitas a quem presenteava com alegria, chistes e pães perfumados. A música andava também pelos corredores, junto ao calor de tudo. Solidão nenhuma cabia por ali.

Será que eu fantasiei um tanto cenário e personagens? Depois de tanto tempo, a memória ganhou licença para qualquer seleção imaginativa e livre. Talvez eu esteja me perguntando agora: “onde estão todos?” A vida anda. Os cenários mudam e também as personagens e cenários em nossas narrativas de vida.

Mas a memória guarda aquela repetição que todo ano cumpria o ritual da fundação da natalidade, do espírito da comunhão. A família, que não era religiosa, nessa época marcava o clima do renascimento. Era então preciso também reiniciar a cada ano o fazer o pão, em meio ao receber as visitas e ao distribuir o presente. Era preciso fundar a todo ano a família, a amizade e o Natal.

Escuto as risadas das crianças. Sinto o movimento da casa. Vejo meu avô de perfil contando casos antigos. Persigo pelo ar o cheiro do pão doce. Ele ainda paira em minhas narinas. Vejo minha avó andando pelos corredores compridos da casa. Ela ainda acende a luz em minha caminhada a cada final e começo de ano.



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3 comentários:

Debora Bottcher disse...

Que narrativa deliciosa... Trouxe à minha memória o tempo em que,
também eu criança, ficava às voltas com a cozinha da minha avó, o fogão à lenha, a casa à beira do rio, muitos primos pelos corredores, meu avô, meu pai e tios pescando à margem do quintal da casa, um falatório geral ao redor. Ali também tinha perfume de pães, doces, bolos e café nos finais de tarde, com a mesa cheia (minha avó teve 11 filhos, que geraram tantos mais!), as algazarras infantis, o barulho da casa que se juntava aos da pequena Sousas - cavalos e charretes na rua, o bonde, galinhas no quintal junto das águas do rio ao fundo.
São as memórias delicadas que abrigamos...
Um beijo enorme e obrigada, Ana, por texto tão singelo.

Juliêta Barbosa disse...

Ana,
Isto não é um texto, é uma canção de amor! Linda, linda, linda.
Alimentou a minha alma que tem sede e fome de coisas belas. Parabéns!

cArLa disse...

Que texto tão delicado! Senti até o cheirinho do pão.