Pular para o conteúdo principal

“whitman=pessoa+beckett” >> Leo Marona

Quero dizer e repetir e repetir e dizer mais uma vez. Que importam as convenções do tempo, a boca funda da esperança tardia? Quero partir os ossos antes que seja tarde, resgatar o brilho no fundo do que um dia se fez criança e hoje não lembra e se vira do avesso e morre, sente a pele descolar, os olhos repuxados pela goela do absurdo. Mas sinto qualquer coisa por dentro envergonhada do estertor, a caixa que pensa se compele, então uma sensação de algo súbito subindo pela garganta e que não pode sair porque são milênios de mentiras e precisamos das letras. Mas quero dizer e dizer e repetir. Repetir que não quero ter que dizer coisa nenhuma e repito. É necessário mais que uma forma, mais que um conteúdo, benzina, um precipício, é necessário acima de tudo o ímpeto desesperado de repetir e dizer mais uma vez e dizer de novo e mais alto, não gritar, lançar os olhos para fora das órbitas, espremer o mundo sobre a retina, repetir a tauromaquia da visão turva em vermelho, com o espeto no dorso, ainda assim derrubar os muros da arena, expulsar os vendilhões, ludibriar os sicofantas e, às crianças, sorvetes de marfim. Ah como eu queria poder dizer e repetir tantas e tantas vezes sem usar a substância do ar, não para me fazer entender apenas, mas para me entranhar da idéia de me entregar ao impulso sem ordem que move as coisas no espaço. Ah tão bom seria gritar cheio de veias “Daqui pra fora, políticos, literatos, comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs, tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida. O espírito que dá a vida neste momento sou EU!” Mas não me assusto se acordar sentindo um aperto no peito sem que se encontre uma boa explicação para isso. Às vezes ocorrem uns reacertos nos subterrâneos da nossa mente que não alcançamos, então é preciso soltar a linha, quebrar as portas à chave, é preciso esbravejar e fazer tudo com fome, nunca se esbaldar, do contrário, deixar a fome roer para então dar o bote, chegar à ponta do animal para resgatar o sentido do que fazemos ainda e não sabemos mais. Gritar mais alto e ser tudo que gera e alimenta e apodrece, ser ao mesmo tempo o padre e a catedral em chamas. Repetir e, quando o derrubarem, repetir outra vez. Negar-se qualquer causa em prol do sacrifício contínuo. Eis tudo o que deve ser feito diante da roda enorme. Errar ou não errar é apenas um detalhe. No jogo de corpos humanos vale bem mais o pulo.

Comentários

Indiquei o blog para o Dardos, um prêmio que os próprios blogueiros destinam aos companheiros de blogosfera.
Depois passem lá no
contoscantoseencantos.blogspot.com e confiram os detalhes.
Abraços,
Maravilha de texto, Léo! Puro "espírito que dá a vida". Perfeito o pulo no final.
leonardo marona disse…
Olha aí, Edu! Estamos "bombando" na "blogsfera", viu? ehehehe... obrigado pela leitura generosa.

abs,

l. marona

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …