quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

JORNADA DA ALMA >> Carla Dias >>


me percorro em vielas
as setas me apertam
eu sou o parafuso solto do presente
Zeh Gustavo


Há dias em que não consigo evitar e, como se levitasse, deixasse a roupa-carne no armário, sobrevoasse reticências, dou de tentar descobrir o que as omissões trazem sob suas asas.

Freqüentemente, nada descubro. Nada sobre aquele tudo que, a princípio, incitou minha curiosidade. Mas durante o caminho sempre tropeço, tombo, caio. A cara no chão nos ensina tanto, principalmente a beleza que há em elevar o olhar.

Elevo o olhar...

Sobre minha cabeça, pairam bênçãos da infância, de quando ainda beijava as mãos das minhas avós, tias e de minha mãe. “A benção”... “Deus te abençoe”. Deus me abençoava, diariamente, através das vozes daquelas mulheres, num cântico que me abraçava a alma. Dava gosto ter nascido mulher, pensar que, adiante do tempo, também eu teceria cânticos e vestiria de desejos de boa sorte o dia das minhas meninas.

Adotei palavras e as tomei por cria.

Deus as abençoe.

Levanto-me sacudindo a poeira do desejo de descobrir. O vento tateia as folhas que dançam tango. A música é miúda, mas intensa. Parece vir de longe, daquela lonjura que nos espera, porta aberta, mesa posta, prataria do desconhecido.

Despida de mim, olhares alheios não alcançam minha imagem. Hoje sou cheiro, teor, tom. Sou de ser sentida não observada. Estou observadora e ciente de que, de longe, nos aproximamos ainda mais das importâncias.

Fechar os olhos e partir em viagem ao dentro é de importância térmica, já que aquece o coração. E no dentro, caminhamos por câmaras, esses lugarezinhos escondidos, que sempre relutamos em visitar, porque nos mostram o quão sós nós somos. Mas também nos recebe de braços abertos, sugerindo uma jornada da alma.

A alma, vez ou outra, cambaleia. Houve dia em que ela não quis aprender com a experiência e se permitiu repetir erros. Chorou esse dia inteiro, sangrando dolências e escrevendo poesia descarada, onde nada rimava por ter embebedado de assimetria cada promessa acreditada. Depois se aquietou e sorriu esperanças.

Há dias em que não há como evitar. Um café, um livro, uma música, uma saudade de doer até, e eu saio de mim, do meu tempo, das minhas certezas.

A jornada da alma me leva aonde sempre quis estar. Onde antes jamais soube chegar.

Imagem: www.unprofound.com por neglekt





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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, suas palavras e essas quartas-feiras são sempre uma bênção para mim. :)

Marisa Nascimento disse...

Carla, ler você é sempre uma surpresa que me faz ficar com um sorriso estampado no rosto e uma admiração cada vez maior pelo que você é/faz! :)

Juliêta Barbosa disse...

Me descobri Carla, em suas palavras! É tudo que também sinto, em dias assim. Belíssimo texto. Parabéns.

Carla Dias disse...

Eduardo... Sua visita é que sempre tornam essas minhas quartas abençoadas.

Marisa... Espero não desapontá-la adiante, porque sorriso estampado no rosto é sagrado.

Juliêta... Bom quando minhas viagens conseguem colaborar com as descobertas de quem as lê. Boa jornada pra você!