Pular para o conteúdo principal

A CAIXINHA DE LÁPIS DE COR >> Carla Dias >>


Terei de lidar com cores, ainda hoje. Na verdade, elas andam sondando a minha vida há algum tempo. É pedido de mãe, tias, amigas para que eu aposente o preto e faça colorir meu vestuário, e se puder, o incremente com estampas alegrinhas.

Certo dia, o pedreiro que cuidada da obra do imóvel onde trabalho pediu licença para me fazer uma pergunta pessoal. Eu dei de ombros, afinal, quão pessoal poderia ser uma pergunta de alguém tão distante da minha realidade? E então, ele me perguntou “você está sempre de luto?”

Verdade... Eu já o conhecia de outras obras, de outros trabalhos. Em fato, agora, acho até que menosprezei a capacidade de ele já ter reparado em mim com aquele estranhamento à monotonia do outro, que sempre se repete. E apesar das gargalhadas que dividimos, da minha eterna defesa “eu AMO usar preto... é gosto, não luto”, ficou uma outra pergunta no ar:

O que tenho de enterrar de vez pra seguir adiante?

Também já me perguntei se me acham infeliz por me faltar estampas. Mas ando-as achando muito mais bonitas nos tapetes, cortinas e almofadas do que nas roupas. É que elas não me caem bem por agora, mas já couberam... Já tive fase de usar todas as cores e estampas. Agora, minha casa é muito mais colorida do que já fui um dia. E, pelo jeito, se veste melhor do que eu.

Ganhei um kit mocinha de uma amiga: batom cor-de-boca (quer cor melhor que essa?), pó (ainda se fala assim?), rímel e demaquilador... ‘Demaquilador’ é uma palavra que gosto de dizer. Quem demaquila também tira máscaras? Bom, aí deve ser em outra seção, né? E sei que 'demaquilante' é o correto, mas depois que ouvi uma mocinha dizer demaquilador... Demaquilador é mais legal.


Tenho usado tais apetrechos, porque minha amiga jurou que me chutaria as canelas se me visse sem esse ‘cuidado básico’. E, vai saber se, num esquecimento, ganho o verde dos hematomas oriundos desses chutes do bem-querer. Afinal, ela é minha amiga, e quer apenas que eu me cuide melhor, fique um pouco bonita, arranje um cara bacana e viva feliz com ele. Enfim, as amigas chutam as canelas quando querem que a outra se toque que um batom nos lábios pode fazer a palavra sair mais solta; ou que um olhar mais assanhado (garotas, rímel assanha o olhar!) ajude a se vislumbrar outras paisagens.

Não pensem que sou contra as cores, porque não sou mesmo. Adoro como elas se completam num ambiente; como dão vida a um espaço. Acho de uma beleza fascinante a cor que a cidade tem, depois de uma garoinha; ou como o céu emoldura paisagens num dia de sol e frio. As cores das bochechas das crianças que brincam de pega-pega; os tons dos seus sorrisos.

Hoje entrará uma corzinha na minha vida. Não será maquiagem ou roupa nova... Anteontem, a mesma amiga que me deu o kit básico de maquiagem me ligou e disse que estava pintando as paredes da sala... Apenas duas delas, na verdade. Ela me chamou para ajudar e beber um drinque que é bom à beça, mas do qual não me lembro mesmo o nome. Só sei que me deixa meio fora de estação rapidinho e é vermelhinho.

Quando cheguei, junto com minha amiga estava um amigo em comum. A pintura, na verdade, já estava quase pronta. Eles estavam sintonizados e respingados de verde-musgo. Cheguei para a melhor parte: a farra! Algumas demãos depois, a parte mais colorida: observar o feito.

Estavam tão felizes com o resultado, que os olhos deles brilhavam. Não somente a cor, mas cada detalhe - o que aquelas paredes destacavam, o que eles adicionaram no cenário - fizeram com que ambos se sentissem satisfeitos por terem finalizado o que se propuseram a fazer e pelo resultado ter sido melhor do que esperavam.

E enquanto eles observavam o feito, eu os observava. Para mim, estava tudo azul. Meus amigos estavam lindamente felizes... E respingados de verde-musgo.

Aproveitando as minhas férias e as deles, decidimos, quer dizer, eles decidiram mais rápido do que eu, que hoje vamos colorir a parede aqui de casa. Porque mudar alguma coisa onde vivemos pode nos inspirar a mudar também a forma como vivemos.

Vai saber se na cor dessa parede, e munida com meu kit maquiagem, eu ganho coragem pra sair do luto e cair no mundo.

O mundo que, há muitos anos, minha professora de artes garantiu, ‘é uma caixinha de lápis de cor'.


Comentários

Carla, bem-vinda de volta à caixinha de lápis de cor. :)
Carla, adorei essa perspectiva colorida de uma nova fase de vida. :)
Ana disse…
Menina,
nem te conheço, mas te imagino de preto e, de colorido e, olha, colorido fica sempre melhor!
:)
Adorei a crônica!
beijos

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …