quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

SENTINELA >> Carla Dias >>

Que o mundo me confunde quando cenário das investidas de desnaturadas pessoas e seus sentimentos amontoadinhos, amontoadinhos... Em corações socorridos pelas desilusões e visões distorcidas. E sei que, do lado de lá ou acerca de alguma curva por aí, alguém pensa a mesmíssima coisa e eu estou incluída nessa leva de pessoas. É como olhar/ser o verso ao avesso ou o revés do contrário, mas chegar ao mesmo lugar, enquanto lá já estava, e chegar sem memória e repetir o erro, mas sabe lá se é erro ou acerto; partir sem se despedir do feito.

E veja que também ando sem saber dizer o que deve ser dito; cabisbaixa, sem saber sentir o que deve ser sentido; com vontade visceral de colo, cafuné, proteção, e de gritar borboletas para que elas voem pra bem longe carregando esse grito - que é pedido de encantamento. Desejo lânguido de esse grito se enroscar nos cabelos de quem outro seja lá. Provocar gargalhadas miúdas no som, como se estivessem escondidas da tristeza.

Houvesse manual para desenfiar o pé das dúvidas, acredite, eu não saberia utilizá-lo.

E que me vem Manoel de Barros: “Com pedaços de mim invento um ser atônito”.



A T Ô N I T O ** // SER?



Já pensei que não sou, por isso tantas coisas acontecendo sem realmente acontecer. Se eu não sou o ser que sou, quem é? Quem quer? Quem me será?

Mas voltando ao mundo, ele que vem me deixando cada vez mais reticente ao abrigar transeuntes seduzidos por enganos dos descabelados, porque, desculpe, mas em nome dos santos, dos deuses, de Deus, não se humilha, vocifera, trucida... Isso é coisa de gente ser humano desprovido de humanidade mesmo! Ao menos, creio eu, em uma das poucas certezas que tenho, penso que amar acolhe compreensão, tolerância, capacidade de se sentar ao lado do outro e permitir que a conversa seja clara, justa. Penso que delegar ao outro, aos santos, aos deuses, ao Deus a autoria da nossa crueldade, é das mais altas sacanagens e, além do mais, não cola.

Esse mundo que nem alcanço num abraço, do qual conheço tão pouco, pouquinho que só; por onde vagueiam meus pensamentos, através dos postais e álbuns virtuais daqueles que foram até lá conferir a beleza, a vastidão e a realidade que é diferente da minha. Nele também caminham os desorientados, que embrulham abismos para presentear aos que lhe desafiam. Nele e logo aqui, bem do lado... Se olhar pela janela, vai saber se não os alcanço.

Alcanço você?

E se olhar para mim? Para dentro do dentro do dentro? Quais olhares eu encontrarei? Que mundo verterei aos berros?

Quando criança, eu achava que o mundo era um lugar onde eu não estava; que somente quando pudesse tomar ônibus sozinha eu o encontraria. Que no dia em que minha mãe fizesse minhas malas, e me mandasse cair no mundo, eu saberia da sensação de assoprar os cabelos dele, como o vento fazendo um campo inteiro de trigo dançar ao seu toque.

A gente acha cada coisa quando é criança, não? Cada coisa boa de se achar.

Além do mais, pela minha mãe eu ainda moraria com ela, que nunca teve mala e chorou no dia que saí de casa... E já nem era mais criança.

Mas confesso que, da menina querendo embarcar nessa aventura de mundo, resta tanto que, vez ou outra, eu me encaro no espelho da infância. Ainda espero, sentada no banco do ponto de ônibus, aquele que pare para que eu embarque nessa jornada. E essa sensação me faz crer que, apesar das ações descabidas de muitos de nós, detalhadamente noticiadas pelos jornais, telejornais, revistas, fofocas na hora do café da tarde, o mundo abriga pessoas capazes de atos dignos, de afetos legítimos, de assumirem a autoria de suas próprias vidas e receberem dos outros, dos santos, dos deuses e do Deus somente o que realmente a eles cabe oferecer.

E aceitar tais oferendas é celebrar a legitimidade de quem somos nesse mundo.


Imagem: www.unprofound.com por Michael Anthony





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3 comentários:

Carlos Vilarinho disse...

Gostei de SENTINELA. PARABÉNS.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, lembrei de um vídeo que você até talvez já conheça: http://br.youtube.com/watch?v=Us-TVg40ExM

Desejo que você faça essas viagens todas que sua criança deseja. :)

Nesses seus desejos, você já reparou como sua linguagem se enrodilha? Tem impenetrabilidade e força gravitacional de bebê que quer voltar para o útero. Se a gente ler com atenção mediana, corre até o risco de nem entender. :)

Carla Dias disse...

Carlos: Obrigada pela visita!

Eduardo: Eu não conhecia esse vídeo, tampouco esse projeto. E não houve como não me encantar com a forma que tomou essa música que, desde que a ouvi pela primeira vez, mora na minha alma.
‘Enrodilha’ é um jeitinho bonitinho de dizer que não chega a lugar algum, de tão atrapalhado que é. Nem mesmo eu entendi tudo, mas como o próprio texto prega: ando sem saber dizer o que deve ser dito, imagina escrever!
Enfim, vou me esforçar pra ser mais clara, mesmo quando a vontade de perder palavra em labirintos me cutucar os sentidos : )