segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

PONTO DE VISTA >> André Ferrer

Nas redes sociais há muitas postagens sobre a nova queda de audiência da poderosa Rede Globo. Acontece todos os anos. É sazonal. Os heróis da resistência e toda sorte de revolucionários fazem a festa porque a emissora é um dos símbolos da dominação. Sendo boato ou verdade, qualquer pista de que as estruturas do império balançam torna-se um grande acontecimento para trotskistas e macrobióticos.

A última onda de êxtase originou-se da queda de audiência no período vespertino. A emissora teria planos de extinguir a clássica Sessão da Tarde.

Tudo isso, no entanto, é impreciso. Alguém já te visitou em casa e instalou um daqueles aparelhos de medição atrás da TV? Cabeça de bacalhau. Quem acredita naqueles números? Anunciante? Publicitário? O IBOPE ainda não se adequou à Era Digital. Outras modalidades de pesquisa praticadas pelo próprio instituto são exemplos de precisão e utilidade pública. No caso da audiência, parece-me que o instituto ainda usa a mesma tecnologia da época das válvulas e do Assis Chateaubriand.

Nas redes sociais, chega a ser irritante a argumentação de alguns macrobióticos (leia, caso prefira, “de alguns trotskistas”). A qualidade caiu ou o povo ficou mais culto e seletivo? Okay, vamos descascar o arroz. Cuidadosa e delicadamente, por favor, para não desperdiçar aquela película milagrosa e quase invisível.

A qualidade caiu. Faz tempo. Agora, mudemos para a segunda hipótese. Aliás, quero crer na segunda hipótese! Na verdade, sou tarado pela segunda hipótese: “O povo ficou mais culto e seletivo”. Quero crer, muitíssimo, ainda que o projeto educacional do PT tenha alguma coisa a ver com isso. Afinal, tirar as pessoas do analfabetismo e colocá-las na posição de analfabetos funcionais já é uma grande coisa.

Tudo bem, escrever o próprio nome muda o ponto de vista de um telespectador. Agora, se ele conseguisse ler e entender os editoriais de todos os principais jornais do país e, dessa leitura distanciada e analítica, pudesse tirar suas próprias conclusões! A educação tem que libertar o cidadão. Países em que não há educação libertadora sequer merecem a classificação de emergente. Países assim chafurdam na lama de uma gerência corrupta e totalitária. Não passam de cativeiros. Qualquer país emergente também possui um exército de novos letrados, uma tropa crítica, uma brigada de livres-pensadores emergindo das trevas.

Dessa vez, tudo começou por causa da Sessão da Tarde. A semana inteira, macrobióticos e trotskistas comemoraram e vomitaram fibras e frases feitas por toda parte. Verdade? Boato? Será que nos horários das novelas e dos programas mais idiotas e vazios da emissora o mesmo também acontece? As pessoas mudam de canal, apertam off, abrem um livro? À tarde, no entanto, ainda é preferível rever filmes como Ghost, Uma linda mulher ou Aquamarine pela milésima vez do que assistir aos programas das outras emissoras. Tirando os cortes, não se consegue interferir no conteúdo dos filmes. O lixo de que se fala está na programação “caseira”, seja do SBT, Band, Record ou da Globo. Sônia Abraão ou Caça Fantasmas? Daí o corte fica por nossa conta.


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3 comentários:

Leo Gomes.´. disse...

adorei a cronica irmão, como sempre recheada de verdade e de opinião própria, sem tentar direcionar suas ideias, deixando assim a opinião de cada um para sua própria reflexão.

albir disse...

Realmente, André, a programação é mercadoria e as emissoras vendem o que se quer comprar. Não têm qualquer compromisso com a cultura ou a educação. Querem lucro. Uma vez assisti, na televisão mesmo, a entrevista com um traficante que dizia:"eu vendo droga porque é isso que os praibói quer comprar. Se eles gostasse de mariola, eu vendia mariola". Abraço!

Georgia Macedo disse...

Ótimo texto. Parabéns!