sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA >> Zoraya Cesar

Você passa por dezenas, talvez centenas de pessoas diariamente, e tão absorto está com seus próprios pensamentos, seu celular, seu tablet, seu qualquer coisa, que, mesmo que sua vida dependesse disso, você seria incapaz de descrever qualquer uma delas. 

Mas tem uma hora, e sempre tem uma hora, que você relaxa e olha em volta. Nem sempre nota algo que se destaque em meio à infinidade de informações que chegam sem pedir licença. É a televisão no restaurante, barulho de pratos, gente falando alto; são as mensagens que não param de chegar ao telefone; é a agenda eletrônica que não para de piscar avisando compromissos que você sabe que não cumprirá a metade; é o vai-e-vem no ponto de ônibus, onde as pessoas se atropelam umas às outras, tentando entrar antes de todo mundo e ver se pegam um lugar para sentar. 

Ponto de ônibus. Final do expediente. Só agora você, já cansado de processar tanta informação e de receber tanto estímulo sonoro e visual durante o dia, se dá ao luxo de passear os olhos em volta.

E vê os mais variados tipos, em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro, universitários, mulheres bem vestidas, mulheres mal vestidas, homens de terno e homens de bermuda, rapazes com jeito de office-boys (ainda se usa esse termo?), e moças com ar exausto. 

Tais moças pareciam todas ter saído da mesma linha de produção de uma fábrica chinesa: os cabelos, mesmo os já naturalmente lisos, haviam sido ainda mais esticados por meio dessas novas técnicas de alisamento que deixam as mulheres permanentemente arrumadas; maquiagem tipo escritório; sobrancelhas marcadas; bolsas grandes, e roupas bem comportadas (variações em cima do mesmo tema, saias ou calças escuras, blusas sociais creme, branco, bege, nenhuma outra cor mais abusada que o rosa claro).
 
No meio dessas mulheres com aparência de bonecas de vinil, uma delas chama a sua atenção, em particular, você não sabe bem por quê. Talvez por ser muito loura, num tom quase branco, de tão claro; talvez pelo jeito delicado e pequenino, que a fazia parecer uma fada de contos infantis; talvez por ser a única a usar saltos altos, demonstrando que ela ainda não havia chegado àquela idade em que as mulheres são sábias, e os deixam no escritório e transitam apenas de saltos baixos, para o melhor conforto. Mas, olhando bem, essa tinha todo o jeito de sentir-se plenamente confortável em cima de saltos a qualquer hora do dia. 

Deixemos então nossa personagem calçar os sapatos que tem vontade e passemos à sua vida. A essa altura, você, com seu incrível senso de observação, tem certeza de que, só de olhar, pode adivinhar, melhor, pode saber, quem ela é, o que faz, qual será seu destino.
 
Sendo tão comuns essas meninas, você conclui que todas as que carregam algum Código de Processo Penal ou Civil na bolsa ou nas mãos teriam mais ou menos a mesma biografia , mesmo a menina com aspecto de fada: estudante de direito, estagiária em um escritório de advocacia, vinda de uma cidade do interior para crescer na cidade grande, papai e mamãe sentiam saudades, ajudavam como podiam a filha exemplar. 

Seu caminho, pensa você, estava traçado no mesmo mapa das outras: ela faria concurso público na área, um dia seria até magistrada, sonhava o pai. Encontraria um bom homem, de carreira militar, de preferência, casariam e me dariam netos, fantasiava a mãe. A moça era boa filha, boa amiga, boa estudante e excelente estagiária. Discreta, avessa a festas, raves, bebedeiras. Quase um modelo de perfeição. E não é que você está de parabéns? Acertou tudo. Teria ganhado o prêmio de mentalista do ano, nao fosse um pequeno detalhe.

Não fosse sua vida real, vida essa que, nem mesmo você, com toda sua imaginação e poder de observação, poderia conceber ao olhar para a pequena fada. Ela jamais faria concurso público, queria mesmo ser uma grande advogada; não encontraria um militar nem muito menos se casaria ou teria filhos com outro homem que não Paulinho. 

Paulinho, seu amado, seu primeiro homem, sua razão de viver. Depois que o conheceu, seus estudos melhoraram tanto e sua eficiência aumentou de tal forma que os sócios do escritório de advocacia no qual estagiava iriam efetivá-la. 

Conheceram-se na praia, único lugar público que ela suportava. Ele se sentiu atraído por sua beleza suave; ela, pelas tatuagens e jeito de bad boy dele. Em menos de um mês já estavam morando juntos, sem os pais dela saberem. Ele tirava um ganho traficando pequenas quantidades de drogas – maconha, crack, ox – e ajudava nas despesas de casa. Tratava-a como uma princesa dentro e fora da cama. Ela criava estratégias para ele vender sem correr riscos e o deixava assistir ao futebol e ao MMA em paz. 

Magistrada? Promotora Pública? Nada disso. A menina com aspecto de fada, loura, delicada, fala mansinha, pretendia ser a melhor advogada criminalista do país, defenderia assassinos, ladrões, corruptos e corruptores, todos os desviados da lei, excetuando os traficantes. Apenas um ela defenderia. Paulinho, seu amor, sua vida, sua biografia não autorizada.



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2 comentários:

albir disse...

Causídicas e seus amores bandidos. Até que deslizam ou exageram e precisam elas próprias de advogados.
Sempre impecáveis os seus textos, Zoraya.

Anônimo disse...

Sempre achei que perfeiçao nao existe. Melhor prestar atençao nessas mulheres muito bonitas. Ainda bem que a minha é feia