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OS EGOCÊNTRICOS >> Fernanda Pinho

Semana passada virou notícia a história de um mestre de obras que lascou cimento nas rodas de um carro que havia sido estacionado em local proibido. Talvez o cara tenha sido um pouco radical, realmente, mas eu achei bem feito. Em uma conversa sobre o assunto defendi com veemência o pedreiro explicando que não suporto gente egocêntrica. E para mim, esse folgado que estacionou o carro na calçada é isso: um egocêntrico que acha que o mundo inteiro precisa se adequar a necessidade dele, e não o contrário.

Depois, numa análise mais racional da minha própria fala, percebi certa leviandade da minha parte ao afirmar que não suporto gente egocêntrica. Se assim fosse, eu estaria isolada numa bolha, com ódio de todas as pessoas (inclusive de mim mesma). Somos todos egocêntricos em diferentes níveis (e aqui preciso deixar claro que estou usando o termo “egocêntrico” sem nenhum compromisso com a psicologia, apenas por falta de termo melhor para definir “pessoa que se acha o centro do universo”).

A pessoa que sempre chega atrasada é egocêntrica. Pois em algum lugar do seu íntimo ela acredita que o mundo inteiro precisa estar à disposição de sua falta de horário. A pessoa que mente compulsivamente é egocêntrica. Afinal de contas acredita que o outro realmente se abalaria com a verdade (e há uma grande possibilidade de o outro estar se lixando). E por falar no outro, as pessoas que estão sempre preocupadas com a opinião alheia, essas que acham que está todo mundo observando seus gestos, suas roupas, suas falas são doentiamente egocêntricas. Combinemos uma coisa: essa entidade chamada “o outro” tem mais o que fazer além de fiscalizar sua existência.

Quem “finge de bobo” é egocêntrico. Pois acha que só ele é esperto. Quem acha que botar defeito é o mesmo que participar é egocêntrico. Pois acredita mesmo que sua opinião é indispensável e precisa ser manifestada, ainda que não acrescente nenhuma contribuição.  O professor que dá um trabalho cabeludo na semana de provas é egocêntrico (e sádico). Não quer dividir o ira dos alunos com mais ninguém.  Quem faz pouco caso do problema alheia, seja ele qual for, é egocêntrico. Se o problema não é meu, não é importante.

Quem não respeita a cultura alheia é egocêntrico (e ignorante). Acredita que existem verdades absolutas que são, claro, aquelas com os quais ele foi acostumado. Quem posta tudo o que faz no Facebook é o egocêntrico moderno. Já pensou que tragédia seria para a humanidade se você não postasse uma foto do seu almoço de hoje? Quem tem sempre um caso mais emocionante para contar ao ouvir absolutamente qualquer história (você diz que foi abduzido por extraterrestres e ele vai dizer que foi abduzido por extraterrestres, mordido por um vampiro e enfeitiçado por uma fada) é um egocêntrico, que, caramba que chatice, acha que a vida é uma competição de contadores de história. Aliás, no geral, quem gosta muito de competir é egocêntrico. Ninguém entra por vontade própria em competições para mostrar que é pior, ora essa.  


Quem estaciona o carro em cima de uma calçada é egocêntrico. E quem detona o cara sem nem procurar saber sobre o que aconteceu, apenas para defender que não suporta gente egocêntrica, não deixa de ser também.  

Comentários

Laís disse…
É isso aí, somos todos em diferentes níveis. Mas confesso que a competição de contar histórias me irrita mais do que todos os outros! Afinal, eu, egocêntrica, quero ser ouvida e não ouvir mais uma..rs

beijo
Solom ;) disse…
Lido, abstraído. Incorporado.
Zoraya disse…
É verdade, a maioria de nós é egocêntrica em determinados momentos da vida, mas os que o são o tempo todo, haja Santa Paciência. Ai, agora tô com medo de mim... Muito legal essa, Fernanda!

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