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PARA COMPARTILHAR >> Carla Dias >>


Um verbo que anda fazendo um sucesso estrondoso é o compartilhar.

Quando pequena, era de praxe ter de compartilhar uma série de coisinhas com as minhas irmãs e irmão, com minhas primas e primos. Aprendemos, assim, que basicamente nada nos pertence, mesmo quando temos certeza da posse. Aliás, certeza é das coisas mais flexíveis que conheço.

Com o passar do tempo, esse compartilhamento se estendeu a outros departamentos: lanche da amiga na hora do recreio, sonhos, roupas da mãe, fofocas da escola, maquiagem da tia, corações partidos, sapatos das irmãs, a vida se tornou praticamente um brechó familiar com direito a sacolé + bate-papo.

Até aí, compartilhar tem a ver com a forma como somos criados, as condições às quais somos submetidos e a pais que compreendem a importância de ensinar aos filhos como se colocar o verbo em prática. A partir do momento em que nos tornamos autossuficientes para assumir a autoria das nossas escolhas, compartilhar se torna bem mais complexo.

Por exemplo, tem gente que adora compartilhar reclamações. Eu sou a favor da reclamação. Há dias em que uma bela sessão de reclamações a um amigo pode funcionar melhor do que várias de terapia. Para mim, reclamar tem função de desopilação. Mas quando vejo que estou passando da reclamação para a autopiedade, finalizo a sessão e vou tomar um café. Compartilhar preocupações e dúvidas não significa que a sua vida é a única com altibaixos, mas sim que alguém que lhe quer bem topou ser seu terapeuta por algumas horas.

Na teoria, compartilhar ganha um toque romântico que, às vezes, sobrepõem-se à importância do feito. Todos nós compartilhamos algo com alguém, isso é fato. Mas então, entra nessa equação a forma como o fazemos, se com o desejo de oferecer ao outro parte da própria boa sorte, ou se apenas para cumprir o dever para aparecer bem na foto publicada nas redes sociais.

Voltando à época em que era criança, lembro-me de que nem sempre compartilhar era fácil. Afinal, que menina quer abrir mão de sua boneca, mesmo enquanto não brinca com ela, para que outra menina se divirta? Com o tempo, isso se tornou fácil, porque aprendi, assim como a criançada companheira da minha infância, que para compartilhar é preciso participar da alegria do outro, o que, se permitirmos, pode nos fazer muito bem.

Como eu disse, compartilhar é um verbo que está na moda, principalmente por conta da sua função nas redes sociais. E o que realmente eu quero dizer, compartilhando essas palavras com vocês, é que ele tem um alcance e importância muito maiores do que a ele creditamos. Sendo assim, tome conta dele, aplique-o -  nas redes sociais e fora delas - de forma legítima, por acreditar no bem que esse compartilhamento possa fazer. Por acreditar no que está compartilhando, seja pelas suas ações ou pelo seu conhecimento, seja pelo desejo de espalhar sabedoria ou de cultivar alguns sorrisos.

Nesse dia, em que celebramos mais do que as compras que conseguimos fazer com bons descontos, compartilhar me parece um verbo perfeito. Use-o com sabedoria, hoje e sempre.

Imagem: sxc.hu

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Compartilhar suas crônicas é um bom exemplo de compartilhamento generoso! Beijos
Carla Dias disse…
Zoraya... Obrigada :) Beijos!

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