segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

MIA CÃO, MIA! >> Albir José Inácio da Silva

Meu nome é Nero e eu era cachorro. Resolvi ser só Nero depois que descobri que cachorro é xingamento. A dona daqui, por exemplo — eu ia dizer minha dona, mas não a considero mais assim — nas crises, chama marido e filho de cachorros. O marido retruca “cadela”, mas o filho engole em seco, que cachorro é tão ruim que não se pode chamar mãe de cachorra.

Ela agora chama o gato de filhinho. Ele dorme num moisés cheio de fitas e almofadas no canto da varanda onde eu antes ficava. Tive de me contentar com o outro lado, onde venta, chove e bate sol. É por isso que eu odeio gatos. Sou um cachorro raivoso mesmo sem hidrofobia. Apesar de sua cama especial, o bichano tem mania de se aquecer ao sol sobre o meu tapete. Não de maneira vigilante, assustada, pronto pra fugir. Não. Fica relaxado, confiante, sem medo. Não é um felino, é uma afronta.

Quando desisti de ser cachorro, fiquei ainda sendo cão por algum tempo. Achava sonoro e a dona não chamava ninguém de cão. Até que, numa conversa de gente, soube que cão é um dos muitos apelidos do diabo. Desisti de me reconhecer como espécie pra ser apenas indivíduo. Nero bastava.

Desisti também de ouvir as conversas dos humanos depois que, olhando pra mim, falaram sobre o Nero romano. Saí da sala.
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Mas percebi que nem todos os designativos de espécies são ruins. Gato e suas flexões, por exemplo, são elogios: homem bonito, mulher bonita. Qual o problema com a minha espécie?

E é por isso também que odeio gatos. Ou melhor, é por isso que já odiava gatos antes mesmo de me saber alérgico. Descobri que era alérgico no dia em que a bola de pelos chegou no colo da dona. Comecei a espirrar tão logo a coisa peluda passou pela porta. Nunca mais meu nariz teve sossego, vou acabar perdendo o olfato.

Mas alergia é o menor dos meus problemas. A coisa sonsa conhece o meu temperamento. Sabe que não me controlo diante de uma provocação. Passa por bonzinho, sofredor e injustiçado. Com isso faz aumentarem os mimos e afagos que recebe e as execrações que me sobraram depois de sua chegada.

Quando ouve a chave na porta, a coisa possuída corre até minha água e vira o prato, arranha o meu focinho e foge. Disparo atrás dele que se encolhe no canto da parede. Bem a tempo de a dona nos encontrar: eu descontrolado, latindo, e ele chorando, acuado. É o diabo! Ela grita comigo, pega o chinelo e esfrega na minha cara, ameaça e chuta. Depois, põe a “entidade” no colo, beija, fala com voz de criança, dá comida e água fresca. Todo dia cumprimos o mesmo roteiro.

Eu, com sede depois do esforço e da humilhação, lambo a água entornada no chão, bem no estilo desenho animado. E durmo gemendo, num canto, para alcançar minha única alegria, que também se repete: sonhar com o gato sob minhas patas, já do avesso, com pelos do lado de dentro e tripas do lado de fora.

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3 comentários:

silvia tibo disse...

Que bom que está de volta, Albir!
E com um excelente texto!
Abraço,
Silvia

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bom, Albir.
Seja bem-vindo de volta. :)

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Belo texto amigo!