quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

UM POEMA PARA DAVE MATTHEWS >> Carla Dias >>

Se você costuma ler as minhas crônicas, já sabe duas coisas importantes sobre a minha pessoa: sou bem melhor escrevendo do que falando e não tenho pudor em me inspirar na arte alheia, na pessoa alheia, no acontecimento alheio para escrever meus poemas, contos e romances. Escrever é minha ferramenta oficial para desopilar e celebrar meus afetos.

Um desses afetos vem da música. Uma das minhas bandas preferidas, a Dave Matthews Band é frequentadora assídua do meu player. Admiro a banda pelos seus talentosos instrumentistas, pelos arranjos bacanérrimos e pelas letras. Pacote completo.

Em 2008, eu assisti ao show da banda aqui em São Paulo. Sem dúvida, foi um daqueles memoráveis, por isso mesmo, passei a sofrer do desejo de assistir a um show deles que não em festival, em lugar menor, onde fosse possível ver e escutar tudinho, dispensando telão, sabe? Sala de casa seria ideal, mas aí já é sonho pra mais de metro. Portanto, decidi que o próximo show que assistiria seria assim, para saborear de perto. Por isso não fui ao show que fizeram no SWU e não irei ao show que eles farão, no próximo sábado, no Summer Break Festival.

Sim, já me disseram que gosto, mas de adorar,  de um jeito esquisito.

Mas toda essa introdução é para chegar ao poema. Em 2008, eu li um post do Dave Matthews no Twitter que me inspirou a escrever um poema. Até aí, tudo bem. Mas então, a pessoa aqui decidiu mandar o poema para ele pelo webmaster do site da banda. Rabisquei uma tradução, um amigo revisou e o mandei. O webmaster respondeu, disse que encaminharia ao Dave, e eu juro, cinco minutos depois, eu estava rezando para que isso não acontecesse, porque a leitura do poema, depois de passada a vontade imensa de cometer o sacrilégio de enviá-lo, não me deixou nada satisfeita.




Mas isso não me impediu de enviar uma segunda versão, dois anos depois, revisada por outro amigo. Segunda versão, porque me sentia extremamente envergonhada pela primeira. Amém pelo o webmaster nem ter me dado bola dessa vez.

Meu problema com o poema nunca foi com a versão original, em português, que ganhou uma versão mais completa e melhor escrita. A tradução para o inglês é que me encafifou. Apesar de parecer tudo no lugar, as duas primeiras vezes não me agradaram em nada. Anos depois, e com um pouco mais de conhecimento sobre o idioma, descobri que a simples tradução era o que me incomodava. Nas revisões, meus amigos, que não são poetas ou escritores, adequaram meu mergulho metafórico à lógica necessária, o que é completamente correto. Mas se há uma coisa que não anda em linha reta é o sentimento. Foi assim que, também mais experiente em relação à vida, eu me dei conta de que precisava era de uma versão.

Não... Eu não mandei a versão final para o coitado do webmaster, feito continuação de filme. Escrever o poema foi o bacana. Permitir-se inspirar pelo que outra pessoa é e sente: bacana. O poema já existe, então está tudo bem. Minha questão com ele foi mais apego de escorpiana pela versão em inglês que melhor espelha o sentimento. E hoje, eu coloco ponto final nessa busca...

Escutando a Dave Matthews Band, claro.

Se você me conhece de verdade, cuidado. Você pode ser a próxima vítima da minha poesia.

Foto publicada por Dave Matthews junto com o post no Twitter


UM HOMEM E UMA ÁRVORE
Poema de Carla Dias
Dedicado a Dave Matthews

Noite passada, sonhei com a pessoa que costumava ser
E neste sonho eu me vi sozinho
Mesmo me sentindo grato por estar neste lugar misterioso
Confrontando dolentes questões com um toque de graça

Eu joguei fora alguns dos meus medos

Quando acordei deste sonho
Meus sentimentos pertenciam à minha alma como nunca pertenceram antes
Percebi que podia alcançar a beleza, apesar do meu coração partido
E cantar canções de amor, por causa do meu coração partido

Então a vida sussurrou nos meus ouvidos palavras que eu nunca ouvira antes

Não lhe culpo por ter medo de mergulhar em minha alma
Porque posso não ser capaz de acalmar a sua inquietação
Mas se nos libertarmos das nossas certezas
Talvez tenhamos a chance de manter o nosso mundo em movimento

Seja gentil, enquanto se despe das suas velhas histórias

Sou somente um homem à procura do próprio sonho
Estou cultivando mistérios no jardim dos segredos expostos
Vivo sob a sombra de uma árvore dançarina
Folhas, galhos e flores sabem onde bate o vento

Vejo a mim através dos seus olhos e isso me liberta

Vou voar com asas emprestadas sobre a árvore dançarina
O que oferece abrigo para minha alma desgastada
Vou contar uma história que escrevi sobre a árvore dançarina
Vou colocar meu coração partido sob a sua sombra

Então, você vem comigo?
Nós podemos curar nossos corações partidos sob a árvore dançarina



A MAN AND A TREE
Poem by Carla Dias
To Dave Matthews

Last night I dreamed about who I used to be
And the dream showed I was alone
Even so I was feeling grateful to be in this mysterious place
Confronting painful issues with a touch of grace

I had to throw out some of my fears

When I awoke from this dream
My feelings belonged to my soul as never before
I realized I could reach the beauty, despite my broken heart
And sing love songs, because of my broken heart

Then life whispered in my ears words I had never heard before

I don't blame you for being afraid to dive in my soul
Because I might not be able to calm your restlessness
But if we undress ourselves of our certainties
Maybe we have the chance to keep our world moving

Be gentle while undressing yourself from your old histories

I am just a man looking for his own dream
I am cultivating mysteries in the garden of exposed secrets
I live under the shadow of a dancer tree
Leaves, twigs and flowers know where the wind hits

I see myself through your eyes and it frees me

I will fly with borrowed wings above the dancer tree
It offers shelter for my frayed soul
I will tell a story about the dancer tree written by me
I am going to put my broken heart under its shadow

So would you come with me?
We can heal our broken hearts under the dancer tree


carladias.com

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