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CONVERSA ENTRE FILHA E PAI >> Paulo Meireles Barguil

Cuidar da prole: missão de todos os seres do reino Animalia de modo a garantir a continuidade da respectiva espécie. Em outras crônicas, falarei sobre as duas etapas anteriores ao nascimento, pois agora quero inverter a ordem da vida, tendo em vista que somente aqui posso fazê-lo.

A subespécie Homo sapiens sapiens, duplamente sábia, pelo menos no seu nome, teve que enfrentar, assim como os animais que a antecederam e os que habitam o Universo, vários perigos da natureza. A morte sempre está à espreita, escondida de várias formas: doenças, predadores, fome, sede, frio, calor...

Há quem diga, bem como quem acredite, que o amor – ou a falta dele – é capaz de matar. Talvez seja, minhas tênues aventuras não me permitem afirmar ou negar esse axioma. Concordo, sem oferecer qualquer resistência, que ele é capaz de torturar.

Na epopeia humana, os múltiplos espaços-tempos nos têm permitido elaborar dinâmicas diferentes na criação das novas gerações. Em cada século, a Humanidade se reinventa. A mudança de cenários, personagens e interações é cada vez mais rápida...

As evidências arqueológicas indicam que, no início, as mulheres ficavam nas cavernas enquanto os homens iam caçar. Essa divisão de tarefas não demorou muito. Há quem afirme que essa mudança foi causada pela progressiva extinção do nomadismo em virtude do desenvolvimento da coleta e, posteriormente, da agricultura.

Desconfio que, em breve, se descobrirá que, desde os primórdios, as mulheres, zelosas com os seus companheiros, obrigaram-lhes a lhes dar uma casa decente, desejando também que eles tivessem um emprego menos insalubre, permitindo-lhes passar mais tempo com sua família.

Admito, contudo, que, às vezes, no Brasil, de modo especial em cidades grandes, se tem a sensação de que moramos em cavernas ou, antes, na própria selva... E o pior: esqueceu-se de que o objetivo de caçar, coletar, plantar ou colher é aumentar a qualidade do aconchego afetivo.

Para incrementar a produção e tornar a sua vida melhor, o Homem desenvolveu ferramentas, conhecimentos. Nas sociedades atuais, ditas e tidas como avançadas, a tecnologia alterou de forma intensa as relações sociais em todas as áreas da nossa vida. As crianças, por exemplo, dispõem de novos cuidadores: instrumentos eletrônicos.

Alguns desses, felizmente, permitem que elas possam se comunicar com seus pais – caçadores pós-modernos –, os quais também usam tais parafernálias fascinantes. A conversa, antes ao vivo, durante alguma refeição, agora é via e-mail, SMS, Skype, Facebook, WhatsApp...

– Papai, você pode vir deixar a blusa do catessismo? – pede a menina ao seu genitor.

– A do catecismo, eu posso. A do catessismo, não dá, pois ela não está por aqui. – responde o pai, que não perde uma oportunidade de ensinar ortografia, ou qualquer outro assunto, à rebenta.

– Ok! Você ainda esta aí ou teve um infarto com o erro? – cutuca a espirituosa filha, acostumada com a mania dele de consertar as coisas...

– TE AMO!!! – diz o pai, tentando deixar claro que o mais importante é o que sente por ela.

– TAMBÉM. – retribui a garota.

– Estou morrendo de rir da sua resposta, lindinha! – o pai acha engraçado quando ela comete alguns errinhos, e aproveita esse momento, pois sabe que vai chegar a época em que eles mudarão da Língua Portuguesa para outras áreas, indicando o final de um ciclo e a chegada de um novo...

[Crônica dedicada a Ana Beatriz, minha filha de quase 10 anos, com quem tenho estabelecido fecundos diálogos]

Comentários

Kenia Silva disse…
Que Beleza: de texto, de ensinamento, de amor...
Crônica linda. Parabéns!
Anônimo disse…
Firme.
Beleza de construção de crônica: do mais geral ao mais particular com muito bom humor. :)
Zoraya disse…
Boa demais, Paulo! O pessoal aí de cima já disse tudo. Só acrescento que meu medo é, daqui a pouco, nao entender mais o que as pessoas dizem!

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