domingo, 20 de abril de 2014

QUAL NOSSO PRÓXIMO PLANO >> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor fique avisado que eu não tenho moral para falar a respeito do que falarei. Em termos de amor, que é o assunto desta crônica, sou tão fracassado quanto uma pessoa pode ser. Para você ter uma ideia, já fui casado duas vezes e meia. Era pra ser três, mas uma de minhas ex não inclui o nosso casamento na lista de casamentos dela. Então o leitor considere o que vem a seguir como o conselho de um amador vacilante cuja única virtude é ser persistente...

Os românticos que me perdoem, mas “eu te amo” não é suficiente. O repertório de frases de um amor precisa ser maior que esse, e não estou falando aqui de variações envolvendo “eu te adoro”, “meu amor por você é maior que a soma das estrelas do céu e dos grãos de areia na praia”, “você é o amor da minha vida”, “minha alma gêmea”, “meu amor, meu bem, ma femme”...

Pra começo de conversa, o amor não nos exime de frases aplicáveis a outros contextos como “por favor”, “obrigado”, “eu gostaria”, “com licença”... Não é porque “eu te amo e tu me amas” que tu és escravo ou escrava de meus desejos e vontades. Educação e respeito fazem bem até mesmo aos amores mais românticos e predestinados do mundo.

Talvez cada casal, por questão de sobrevivência do amor, precise desenvolver certas frases que permitam que o amor vá além da paixão inicial. Se meus amores até aqui não duraram mais que a eternidade de sua curta ou média duração, talvez tenha sido pela ausência da frase certa.

Esses dias, ouvi uma frase que será útil em minha próxima tentativa. Não é uma frase assim que vá chamar a atenção de um espírito apaixonado, mas a mim, que sou um tanto pragmático, me fez arregalar os olhos num “é isso!”. A frase é, simplesmente, “Qual nosso próximo plano?”. Não é linda? Não é fofa? Não é querida? Não, não, não, a leitora não achará nada disso e ainda pensará que enlouqueci, que com uma frase dessas é que não tenho mesmo a mínima chance de ser feliz para sempre com uma princesa de contos de fadas. Então preciso me explicar, tintim por tintim...

QUAL? Uma frase que começa assim abre as portas da compreensão. Porque embora gostássemos que o amor fosse cheio de certezas, a verdade é que ele não é. De onde vem essa ânsia toda de ouvir “eu te amo” senão da nossa própria insegurança que se expressa em pensamentos musicais do tipo “será que você ainda pensa em mim?”, “será que a gente ainda será aquela história de amor que sempre acaba bem, meu bem?”? Então, em vez de tapar a insegurança com ciúmes e cobranças, melhor é assumi-la logo e começar nossa frase de amor com um pronome interrogativo. Porque precisamos nos perguntar. Tanto no início do amor, quando tudo parece possível, quanto no meio, quando as coisas começam a engrossar. E também no que ameaça ser um desesperador fim. Qual? É preciso estar aberto para algo que ainda não sabemos o que é.

Qual NOSSO? Eu sou eu, nós é nós. “Às vezes parece até que a gente deu nó”. Nós. Nessas horas, a pessoa está sujeita a achar que o nó está no outro, que é o outro que está travando a relação. Mas não é nó, são nós. Usar o NOSSO na frase amorosa chama a consciência para essa construção conjunta. A culpa não é sua nem do outro, a responsabilidade é de ambos. NOSSO é um antídoto para nossa costumeira panaceia que quer que o outro mude, afinal "ele é que está errado, eu sou uma pessoa altamente amorosa que sempre fiz tudo para ele". Isso, claro, vale para o início do relacionamento também. O NOSSO, por exemplo, precisa aparecer na hora de escolher cada programa. Senão fica o programa de um ao qual o outro comparece (por vezes, contrariado).

Qual nosso PRÓXIMO? O amor é uma continuidade. Se hoje você não ama algo que amava ontem, então possivelmente não amava aquilo ontem. Podia ser outra coisa: paixão, interesse, empolgação, impulso, vício... mas amor que é amor dura, mesmo que o formato da relação mude. Então é preciso perguntar o que vem a seguir. É como canta o Gil, “quem poderá fazer aquele amor morrer se o amor é como um grão?” Há que se perguntar, dia após dia, o que vem em seguida, de que planta o nosso amor é grão. PRÓXIMO também indica algo que está por perto. O amor não precisa de mirabolâncias, objetivos distantes e quase inalcançáveis. A idealização de si, do outro, da relação, é o que torna o amor longínquo, escapável ou mesmo inatingível. O amor é um passo depois do outro. Um passo, depois o próximo passo, e o próximo, e o próximo...

Qual nosso próximo PLANO? Devido à abertura do QUAL, ao compartilhamento do NOSSO e à continuidade do PRÓXIMO, é preciso traçar um plano. Ter ideias, imaginar caminhos, projetar o futuro que se quer. Mesmo que as ideias mudem ao ser implementadas, mesmo que a imaginação se adapte à realidade, mesmo que o projeto passe por reformulações, é bom ter um plano. O plano nos indica qual o ponto de descanso mais próximo. Estamos aqui, vamos até acolá. Vamos planejando até onde a vista alcança, e, bem no início, ou nos momentos de crise, a vista pode alcançar bem pouco. Então é preciso criar ou refazer os pequenos hábitos do amor: o próximo plano pode ser ver um filme, ouvir um ao outro naquilo que ainda não foi contado, dar um passeio, fazer um livro, ter um filho, plantar uma árvore...

Tendo “por favor” e “com licença” por base, e “qual nosso próximo plano?” por meio, fica muito mais fácil acreditar quando se diz e quando se ouve, enfim, “eu te amo”.

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6 comentários:

Cristiana Moura disse...

:)

Zoraya disse...

Eduardo, acho que você acabou de me salvar de um abismo sobre o qual eu não teria asas para voar. Obrigada.

albir disse...

Depois dessa aula, Edu, acho que você vai começar a receber consultas sentimentais. Ou propostas amorosas.
E começou dizendo que não sabia nada desse assunto...

Lilu disse...

Valha-me Nossa Senhora das Mordiscadas de Pitomba! Se esse homem se aconchegar bem aqui na minha curva prometo amar o cuidado nosso de cada dia.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, gente. Vocês sabem como colocar os mais diferentes sorrisos na minha cara. :)

Fernanda Pinho disse...

Lendo uma lindeza dessas fico pensando: imagine se você tivesse moral pra falar do assunto.