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SODAMA II >> Albir José Inácio da Silva

Empresário, cuidando sozinho dos negócios, do pessoal, das finanças, do marketing, Ernesto se considerava merecedor do sucesso. E o sucesso veio rápido. Os clientes foram chegando, timidamente a princípio, mas logo em bandos ruidosos. Os bares da cidade começaram a ficar vazios e a madrugada mudou de endereço.

As moças, proscritas da cidade, nem consideravam gostar ou não dali. Sem ter aonde ir, restava-lhes o Sodama como casa, Seu Ernesto como dono e umas às outras como família.

Seu Ernesto supria-lhes as necessidades da melhor maneira possível. Patrão generoso, ficava com apenas setenta por cento de cada atendimento, para as despesas da casa e outras providências, em benefício das próprias meninas. Não lhes cobrava pela moradia, em que se revezavam para limpeza e manutenção, nem pela comida, que elas também preparavam, mas era ele quem comprava.

Na verdade, como ele dizia, não precisavam de nada. O dinheiro lhes sobrava para pequenos luxos como maquiagem, lingerie, bolsas e sapatos. Luxos que usavam no trabalho e eram providenciados também por Seu Ernesto, já que não podiam ir à cidade. Ele trazia tudo a preço de custo, só para agradar. Elas é que eram gastadeiras e estavam sempre devendo a seu Ernesto.

Mas ele não se importava, queria vê-las felizes. Trouxe celulares novinhos em folha. Caros, como explicou, porque eram de última geração. Além de telefonar, podiam tirar fotos, gravar e ouvir músicas. Bem, telefonar não, porque inexistia ainda sinal por ali, mas já estava chegando. E o Sodama virou uma festa com desfiles, poses e fotos.

Verdade que Seu Ernesto era rigoroso em questões de trabalho, honestidade e obediência, mas, quando se comportavam bem, era só carinho. Poucas vezes, e só quando absolutamente necessário, teve de castigar esta ou aquela faltosa. O que fazia a contragosto e com cuidado, cinto de couro sem fivela, para não marcar a pele em prejuízo da plástica e do trabalho.

Os negócios se expandiram em resposta à boa gestão. Seu Ernesto vendeu lotes no entorno por preços módicos, prazos razoáveis e promissórias. Inaugurou linha de transporte alternativo para facilitar a frequência dos clientes e a mobilidade dos moradores. Chegou a escrever no para-brisa da kombi: CENTRO – SODAMA, mas a secretaria de transportes implicou, e ele teve de trocar para CENTRO - Km 19, que era a altura da estrada em que ficava a, já agora, Vila Sodama.

Primeiro Seu Ernesto cuidou de alimentar as meninas da casa, como vimos, mas logo ampliou a atividade, abrindo portas ao lado para atender clientes e moradores, que assim podiam comer e beber sem ameaçar a discrição do sobrado. Discrição era tudo nessa atividade, mas era difícil mantê-la.

Nos lares da cidade, a coisa não ia tão bem. A falta de comparecimento dos maridos sugeriu às mulheres que eles tinham encontrado outro folguedo. Não precisou muita investigação para saberem do novo lupanar no KM 19. Mobilização, religiosos, donas de casa e administração municipal. Discursos inflamados diziam que na periferia da cidade erguia-se uma nova Sodoma, e invocavam de Deus o mesmo tratamento dado à cidade do velho testamento, ou seja, destruição com fogo e enxofre descidos dos céus.

Os gentios, que não frequentavam igreja nem liam Bíblia nenhuma, corromperam a palavra Sodoma para Sodama, entendendo que o nome se devia ao fato de o lugar ser habitado apenas por mulheres-damas. Começaram por dizer “só damas, só-damas, sodamas” e, pronto, retirar o “s” dos plurais era-lhes tarefa corriqueira. Ficou Sodama, agora não apenas o sobrado, mas uma comunidade com dezenas de pessoas.

E o que inaugurara tudo de bom na vida de Seu Ernesto começou a ficar incômodo. O dinheiro era bom, o prestígio, mas não queria ser conhecido como cafetão. Precisava dissociar seu nome daquele lugar sob pena de ver naufragarem suas pretensões eleitorais.

(Continua em 15 dias)

Comentários

Cristiana Moura disse…
15 dias? Vou ter que esperar 15 dias?
albir disse…
Obrigado, Cristiana, pela expectativa.
Quero ver como Seu Ernesto se sairá dessa... :)
Tô gostando do folhetim, Albir. :)
Zoraya disse…
Cristina e Eduardo têm razão: maldade fazer esperar mais 15 dias, e isso tá o maior novelão, to adorando. Continuação já!

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