segunda-feira, 7 de abril de 2014

SODAMA >> Albir José Inácio da Silva

Da varanda da casa nova, ainda nos acabamentos, Ernesto observa o Sodama. Que destino dar ao sobrado depois das eleições?

Quanto a estas, as eleições, fez o que tinha de fazer e devia estar tranqüilo, mas não está. Alguma coisa impede a sua paz. Não consegue confiar nos eleitores, mesmo quando lhe fazem festa. Ernesto acha que merece respeito e gratidão daquela gente e espera que o reconhecimento venha através do voto.

Mas sua mente retorna ao Sodama. Há muitos anos o lugar estava em ruínas e muito trabalhou ali, quando não tinha dinheiro, para que ficasse habitável. Fugira de Minas numa carroça, com meia dúzia de tralhas que juntou às pressas depois de um crime de sangue. Muitos dias no mato, atravessou morros e rios, e chegou àquele lugar.

Lembra que olhava desanimado e faminto para o sobrado, o capim entrando pelas janelas, quando viu, saindo da estrada, um bando de mulheres. Estavam péssimas: roupas rasgadas, mancando umas, outras feridas, duas com sangue já seco no lado do rosto. Com medo, custaram a se aproximar.

— O senhor sabe quem é o dono daqui? Ouvimos dizer que está abandonado, mas nunca se sabe, né?

Ernesto já ia dizendo que não, também estava de passagem por ali, mas a esperteza falou mais alto.

— O dono sou eu. É de nossa família. Está meio abandonado porque a gente tem outras propriedades, mas agora eu tô chegando aqui pra cuidar.

— A gente tá um caco, moço. Será que não dá pra se abrigar até resolver o que fazer da nossa vida?

Não conseguiram evitar tremura e lágrimas quando contaram a história. Funcionavam numa discreta casa de cômodos na cidade, e não faziam mal a ninguém, quando a perseguição começou. As mulheres, desconfiadas de que aquele lugar atraía seus maridos, antes tão honestos, começaram com xingamentos na rua, vassouradas nas meninas, e depois pedras contra o telhado.

Com apoio das autoridades religiosas e sob vista grossa das administrativas, depois de barulhenta campanha pela moral, as senhoras atearam fogo na casa e as moças foram expulsas da cidade no meio da noite. E é por isso que estavam ali, estropiadas por socos, pontapés e horas de escuridão pelos caminhos.

Amanhecia e os olhos de Ernesto também se iluminaram.

— Só não me aborreço com as meninas porque vocês não têm obrigação de me conhecer. Conhecessem, e saberiam que Ernesto jamais deixaria damas tão distintas no desamparo.

Quase tão destruídas quanto a casa, as mulheres ainda assim trabalharam muitas horas, dias, para limpar, capinar e consertar, sob o comando firme e carinhoso de Ernesto.

Muito suor e pouca comida depois, o lugar foi aberto, mas, longe da cidade, não havia clientes. Diligência e esperteza, entretanto, não faltavam a Ernesto. Carroça cheia, descia o chicote no burro até o Centro com a desculpa de vender bugigangas. O que fazia, na verdade, era informar aos homens que encontrava o novo endereço da alegria. Exaltava a beleza das meninas, o conforto das instalações, o preço justo e a discrição do lugar, agora não mais exposto aos olhos das fofoqueiras e dos fiscais da felicidade alheia.

Empresário, cuidando sozinho dos negócios, do pessoal, das finanças, do marketing, Ernesto se considerava merecedor do sucesso. E o sucesso veio rápido. Os clientes foram chegando, timidamente a princípio, mas logo em bandos ruidosos. Os bares da cidade começaram a ficar vazios e a madrugada mudou de endereço.

(Continua em 15 dias)

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Você escreve bem demais, Albir! Que bela variedade de artifícios! Com um final como esse, "a madrugada mudou de endereço", não precisava nem de continuação, mas claro que já estou antecipando o meu relógio para que 21 de abril chegue mais cedo. :)

Zoraya disse...

ahhhh, que maldade! não dá pra mandar pro meu email a continuaçao, antes do dia 21 nao? rssrs Beijos