quarta-feira, 23 de abril de 2014

CARTA-RENÚNCIA >> Carla Dias >>

O universo transpira ao seu favor, fazendo a vez de fada madrinha emburrada, e ocupadíssima, toda vez que você, desapegado da justiça coletiva, pisa no pé da verdade, jurando que a dor que ela sente é, de fato, afeto desmedido.

O desmedido, e lhe digo isso por experiência na aplicação, nunca faz serviço decente. Não adianta cometê-lo usando a máscara da gentileza, valendo-se dos trejeitos da felicidade. O desmedido é, por definição, desproporcional à empatia.

Mas quem sou eu para alertá-lo sobre os sentidos, não? Alguém que observa a sua rotina de desmazelos, de desculpas impregnadas de suspiros que acabam por enfeitiçar aos que tiraram o dia para se tornarem vítimas da sedução barata da palavra dita em versos, chamada poesia por pura falta de fineza seria gritá-la pelo nome apropriado: repetições.

Sobre as repetições, devo lhe dizer que elas sim têm valor. Repetições são inevitáveis, e podem ser certeiras se às voltas com a sinceridade. Não fosse assim, dizer “eu te amo” a alguém, mesmo amando esse alguém de fato, soaria como o refrão de uma canção ruim. Na repetição das declarações de amor o que vale é o ineditismo do sentimento, o seu frescor, a sua naturalidade. E depois, a sua evolução desapegada da memorização, e completamente entregue ao improviso.

Improvisos enfeitam sentimentos e surpreendem expectativas.

Se quiser, escolada que ando no seu vocabulário, de tanto ficar à mercê da sua existência, posso lhe cantar repetições abrilhantadas pela minha eficaz habilidade em lhe gostar, com direito às repetições inéditas, descarada que me tornei por tanto insistir no que jamais será da minha alçada: você.

Mas antes de sair de cena, devo lhe alertar: a boa sorte anda exasperada de tanta incompetência sua em se fazer merecedor dos seus abrandamentos. Ela não se conforma com esse tratamento que você anda lhe oferecendo, como se ela fosse, na melhor das hipóteses, um direito. De direito ela oferece apenas a oportunidade de cortejá-la, e já a vi se negar a vingar na vida de uns e outros que lhe ofereceram bem mais do que você insiste em dizer ser suficiente.

Quanto ao suficiente, quase sempre ele é insuficiente, e por pura lógica: o que você tem a oferecer nem sempre é o que o outro merece receber. A sincronia entre o oferecido e o merecido é um daqueles pequenos milagres dos quais ignoramos a importância, só porque ele acontece silenciosamente, dando a impressão de que nada mudou, enquanto, na verdade, ele se tornou o alicerce dos melhores acontecimentos da sua vida.

Lamento não poder lhe oferecer mais tempo para lamentar o que falta, oferecendo-lhe meus ouvidos, minha alma e o meu tempo ao embalar seus suspiros oriundos de uma encenação barata de infelicidade que você nem sente, mas gosta de acessar para se sentir confortável com o desconforto alheio.

Sobre o desconforto, em algum momento ele deixa de ser do outro.


carladias.com

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita, essa semana a mulher veio quente! :)

Zoraya disse...

Carla, essa última frase ficou um primor - acompanhando o resto do texto.

Carla Dias disse...

Eduardo... Me deu vontade de café fresco e quentinho :)

Zoraya... Estou estudando o efeito das últimas frases na minha alma.