quarta-feira, 9 de abril de 2014

QUE PARA SER, MELHOR QUE SEJA SEM ENSAIO
>> Carla Dias >>


Antes de sair de casa, de rezar as rezas que o seu coração acabou de decorar. De arrastar os pensamentos de acordo com as tarefas pré-estabelecidas e verbalizar desejos dos quais você não sabe se é autor ou simpatizante.

Antes de entrar na roda, nessa ciranda aprisionadora de pensamentos, vestindo a melhor roupa do momento. De redecorar a alma com o condicionamento exato para a necessidade vigente.

Antes de sussurrar banalidades nos ouvidos do outro, a fim de provocar o sorriso automático, inventando uma alegria que padece de descontentamento, mas cai bem no cenário. De interpretar mágoas porque elas parecem devidas, de atiçar a sanha, porque pode, por que não?

Antes de nascer o dia em que o sentido não faça sentido, que a importância seja outorgada ao primeiro que chegar. De a felicidade parecer tão distante, que colecionar lonjuras se torne um hábito. De faltar o ar por pânico, em vez de pelas gargalhadas nascidas à toa.

Antes que o rumo mude, de um jeito sem volta, desbotando as alegrias, botando medo no seu entusiasmo. E que você já não saiba como reconhecer-se na felicidade que lhe é devida. E de o antes pontuar a sua história, sem deixar espaço para um depois que valha a pena...

Pense naquela cena de cinema que não sai da sua cabeça, que já lhe fez sorrir, e tantas vezes, com gosto, sem encenação, sem cabimento.

Que para ser, melhor que seja sem ensaio.

carladias.com



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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que seja, então, sem ensaio...

Carla Dias disse...

Eduardo... Certas coisas são melhores assim, no improviso. Beijo.

Zoraya disse...

Carla, no seu caso, com ou sem ensaio, suas crônicas estão cada vez mais lindas.

Anônimo disse...

Amei essa crônica,e concordo as melhores cenas são as não ensaiadas nem previstas.Que acontecem naturalmente.

albir disse...

Carla,
é isso que a gente faz depois de ler seus poemas: rumina encantamentos.

Carla Dias disse...

Zoraya... E você cada vez mais gentil.

Anônimo... Fico feliz que tenha apreciado meu texto. Volte sempre, quem sabe, não anonimamente.
Albir... Assim como Zoraya você me enche de gentilezas. Obrigada.