Pular para o conteúdo principal

QUE PARA SER, MELHOR QUE SEJA SEM ENSAIO
>> Carla Dias >>


Antes de sair de casa, de rezar as rezas que o seu coração acabou de decorar. De arrastar os pensamentos de acordo com as tarefas pré-estabelecidas e verbalizar desejos dos quais você não sabe se é autor ou simpatizante.

Antes de entrar na roda, nessa ciranda aprisionadora de pensamentos, vestindo a melhor roupa do momento. De redecorar a alma com o condicionamento exato para a necessidade vigente.

Antes de sussurrar banalidades nos ouvidos do outro, a fim de provocar o sorriso automático, inventando uma alegria que padece de descontentamento, mas cai bem no cenário. De interpretar mágoas porque elas parecem devidas, de atiçar a sanha, porque pode, por que não?

Antes de nascer o dia em que o sentido não faça sentido, que a importância seja outorgada ao primeiro que chegar. De a felicidade parecer tão distante, que colecionar lonjuras se torne um hábito. De faltar o ar por pânico, em vez de pelas gargalhadas nascidas à toa.

Antes que o rumo mude, de um jeito sem volta, desbotando as alegrias, botando medo no seu entusiasmo. E que você já não saiba como reconhecer-se na felicidade que lhe é devida. E de o antes pontuar a sua história, sem deixar espaço para um depois que valha a pena...

Pense naquela cena de cinema que não sai da sua cabeça, que já lhe fez sorrir, e tantas vezes, com gosto, sem encenação, sem cabimento.

Que para ser, melhor que seja sem ensaio.

carladias.com

Comentários

Que seja, então, sem ensaio...
Carla Dias disse…
Eduardo... Certas coisas são melhores assim, no improviso. Beijo.
Zoraya disse…
Carla, no seu caso, com ou sem ensaio, suas crônicas estão cada vez mais lindas.
Anônimo disse…
Amei essa crônica,e concordo as melhores cenas são as não ensaiadas nem previstas.Que acontecem naturalmente.
albir disse…
Carla,
é isso que a gente faz depois de ler seus poemas: rumina encantamentos.
Carla Dias disse…
Zoraya... E você cada vez mais gentil.

Anônimo... Fico feliz que tenha apreciado meu texto. Volte sempre, quem sabe, não anonimamente.
Albir... Assim como Zoraya você me enche de gentilezas. Obrigada.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …