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realidade / enfim só >>> branco


realidade

eu insisto !

insisto em meu ponto de vista

a realidade é essa merda
que insiste
em me atrapalhar
nas minhas lutas
contra moinhos de vento 
e murros em ponta de faca


enfim só

acordar
e esquecer quem fui
- essa é a ideia - 
tirar esta barba
que por longos anos foi minha identidade
roupas novas sapatos novos
sorriso novo
e ter um novo jeito de enfrentar 
os mesmos velhos problemas

sair pelas ruas e não notar
coisas que sempre foram tão importantes
cumprimentar pessoas - dizer bom dia -
chegar ao trabalho
- mais bons dias a serem ditos -
sentar-me à mesa
escrever em papéis
e assinar papéis
rasgar papéis
e não precisar correr para o almoço

voltar ao trabalho
atender ao telefone
e sorrir ao telefone
conversas profissionais
- outras amenas - 
o sagrado cafézinho
e um cigarro
dois cigarros
três cigarros
quatro cigarros
e às cinco
terminar a jornada
ir sem pressa para a casa
abraços beijos e carinhos não me esperam

sou um novo homem agora
barbeado
com roupas novas
postura nova
absolutamente sozinho





Comentários

Anônimo disse…
Não é um lamento, apenas o relato de uma cena diária, mas quanta dor! Magistral !
Carlos Eduardo disse…
Você brinca com as palavras, em um texto com extrema dureza e retratando o dia a dia de um solitário você brinca com as palavras. As repetições são um verdadeiro achado e o desfecho um soco no estomago. Como sempre o mago transformando rotina em arte. Alquimia.
Claudio Mariitto disse…
Um re-conhecer para um re-sentir ou até mesmo se re-descobrir. Encontrar a novidade coberta pelas imagens captadas do cotidiano e impressas em nossa realidade. Uma reedição de " quem sou eu?"
Parabéns amigo! Limpo e impecável!
Daniela Lara disse…
Tornar-se um "homem novo", sem que haja o novo... Talvez seja resultado dum insistir num ponto de vista. Mas quem supera? Pra pensar...
Salete Ortiz disse…
com roupas novas postura nova absolutamente sozinho. Dói até em pensar.
Anônimo disse…
Sensacional como sempre
Mauro disse…
"absolutamente sozinho"....num porto seguro!
Renato disse…
Como é difícil ver e não enxergar.
Carla Dias disse…
A melancolia de ser. Sempre achei a melancolia rica em possíveis alegrias.
Muito bacana, Branco. Adoro a cadência poética se revelando em cenas.
Anônimo disse…
Homem novo, com roupas novas, sapatos novos, mas a velha solidão.... Lindo e tão verdadeiro!
Anônimo disse…
Nossa!!!!!
Unknown disse…
Sozinho?

Talvez?

Cristão sozinho?..... NUNCA...

"Estou com vocês todos os dias até o fim dos séculos"
Jesus Cristo

Bjusss
Sandra Naldi disse…
A verdadeira face da realidade como um todo. Ser só, seria questão de opção? Amarga realidade do dia-a-dia? No meu ver, uma doce e real solidão😎
Marcos Antunes disse…
Elegante, ousado e sincero.
Antonia M. disse…
Branco, estou encantada, em cada crônica você se supera. Tudo novo e talvez a própria cabeça, pois, olhará tudo de maneira nova.Parabéns.
Zoraya Cesar disse…
me deu até um aperto no coração. um olho surgiu das suas palavras, olhou fundo para mim e perguntou o que eu estava fazendo da minha vida para não cair nesse absoluto. Pq é o que vejo nas pessoas que trabalham ao meu redor.
Espetáculo de tristeza em conta-gotas.
branco disse…
mea culpa! as vezes demoro para vir aqui agradecer os comentários, quem visitou a página, quem indicou, etc.. mas, penso que seja bom esse atraso, assim a vontade de abraçar a todos fica maior e de uma maneira que me parece mais justa, afinal "abracinhos são tão formais. Sintam-se abraçados e queridos, voces são as minhas personagens e o meu dia a dia.
ahhhhh...a partir da próxima quinzena, vou começar a publicar alguns poemas que, apesar das diferenças formam, um quadro. começou lá atrás, lembra-se de "estranhos ao ocaso"?, muitos dos personagens daquele poema estão nestes que serão publicados, intertextualidade, spin-off entre outras miudezas. podem e devem ser lidos separadamente, mas se preferirem acompanhar todos , verão o que chamo de "biografia dos anônimos".
abraço forte, beijo maior!