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IGNORE O VAZIO >> Carla Dias >>


Que hoje não é dia de aceitar o vazio.

Comprometeu-se a executar tarefas simples, a fim de manter a mente pronta para a próxima ideia, para a possibilidade seguinte, o porvir. Um empresário de silêncios dramáticos – os filmes estão repletos deles – até se propôs a arquitetar um plano mirabolante para enganar o incômodo e conceder a ela um pouco do conforto da ignorância.

Não aceitou, porque a ignorância lhe parece de um desconforto infinito e ela aprecia desfechos.

Que hoje não vai dar oportunidade para que o vazio a domine e a transforme em um pedaço de carne a se arrastar pelas calçadas da cidade. Vazio faz isso de reduzir a pessoa ao menos que ainda a permita respirar. 

Não é morte, mas abandono nevrálgico.

Porém, ela tem um plano. Acredita que alegria, horror e dor duram um dia. Depois do sono, apaga-se a urgência, desmistifica-se a importância do abatido e a existência volta ao ponto em que não faz diferença. 

Nada pulsa, apenas está ali.

Deita-se no saguão. Lá fora, o sol disfarça o frio do inverno. Fecha os olhos, crente de que seu projeto para evitar vazio irá funcionar. Porque não há como ser diferente. Porque mesmo os desinteressados tropeçam.

Olhos fechados, escuta barulhos de conversa, de passos, de malas e suas rodinhas de facilitar transporte. Espera pacientemente pelo primeiro gesto. Apesar de como andam as coisas, nunca desacreditou na capacidade do interesse de se apossar de uma pessoa.

O tempo passa e, impaciente, ela deseja que alguém contradiga seu incômodo. 

As conversas se tornam algumas vozes enjauladas no cansaço. Os passos rareiam. O silêncio toma conta do recinto. Bem que seu pai lhe disse para não se enveredar por métodos de comprovação de ideias absurdas. Fosse há algumas décadas, quem sabe ela teria algum sucesso com seu experimento, mas hoje?

Hoje, decidido a não se render ao vazio de uma observadora de abismos, depois de quase uma década sem conseguir catalogar um sintoma que fosse de uma possível regeneração da capacidade humana de perceber o outro, acabou mesmo por se certificar de que a sua profissão de nada mais vale. Ali, deitada naquele saguão de estação de metrô, durante horas, foi ignorada por opção e de muitos, milhares. Desviaram dela, mas sem lhe dar qualquer atenção. Ignoraram por escolha aquele corpo estendido no chão. 

Nem mesmo perceberam se havia vida nele.

Os ignorantes são felizes em sua pequena aldeia de certezas débeis e frases decoradas do livro mais editado do mundo. Eles não se importam de serem enganados por si mesmos, negando-se a pulsar o que são incapazes de domar.

Solidão pulsa.

Violência pulsa.

Amor pulsa.

Respeito pulsa.

Sofreguidão pulsa.

Repulsa pulsa.

Vida pulsa.

Ignorância entorpece e esvazia.


Quem eu era, foi-se. Adeus, então. Quem dera a cada adeus ganhássemos um temporal.


Imagem © Else Blankenhorn


carladias.com

Comentários

branco disse…
a proximidade com a perfeição de suas crônicas. o absurda urgência monótona. inspirar...inspirar-me !
Carla Dias disse…
Branco, já nem sei mais como agradecer... Obrigada! Beijo.
Zoraya Cesar disse…
Temos de ter cuidado ao ler alguns de seus textos, Carla, a gente pode cair neles e nunca mais sair, embevecidos, como Narciso, a definhar em profundezas da nossa própria imagem, guardada bem bem lá n fundo. Primoroso.
Albir disse…
"Nada pulsa, apenas está ali". Que beleza, Carla!