sábado, 26 de julho de 2008

MITOS MODERNOS [Sandra Paes]


Anda vagando por aí, em nome do budismo, da Cabala, do apocalipse, da expansão da democracia e sua liberdade de expressão, do uso da internet e tantas outras correntes, uma propaganda sobre o poder do pensamento.

Acabo de ver mais um desses programas de variedades espalhando mais uma vez a mensagem de que o que se pensa, se cria e se materializa - mesmo que não se queira isso.

Me pego no som da dúvida: hummmm... será?

Você vigia sua mente? Tem um instrumento próprio pra fiscalizar aonde vão seus pensamentos diante de tanta pressão de informações e regras circulando? Não creio nisso também, não.

Por exemplo: diante de uma greve dos Correios, quem deixou de se preocupar com a correspondência? Quem de fato ficou totalmente tranqüilo diante das contas que não chegavam, das encomendas presas em algum depósito, ou qualquer outra mensagem engarrafada por conta de mensageiros paralisados?

Quem, diante de um engarrafamento no seu dia-a-dia, não pensa no que vai acontecer com seu atraso no trabalho, nas conseqüências das reuniões não iniciadas na hora? No filho esperando na porta do colégio, no atraso das tarefas domésticas por conta da paralisação de qualquer coisa?

Fazer o quê? Vigiar a mente e comandar: “Fica quieta! Tá tudo sob controle! Seu filho não está ansioso te esperando, as contas já foram pagas e você não precisa se preocupar com juros extras ou multas novas, as encomendas já chegaram e a clientela já está usufruindo dos produtos”.

Em milhares de pessoas diante de tais circunstâncias, quem de fato pensa no já solucionado? Se assim fosse, não seria preciso prece, nem promessas pra santos, nem telefones celulares pra dar o último recado, e não seria preciso balanço de conta bancária todo mês.

Sim ou não?

Fato, parece ser que diante das pressões geradas por circunstâncias que desconhecemos, os avatares da nova era - da força da mente como árvore do desejo -, colocam tudo no bom uso da mente. Se você pensar positivo, tudo já está resolvido ou feito.

É isso mesmo? Vejamos... Os jornais de televisão são os primeiros a acionar os alarmes e as sonoras formas de alerta diante de dramas: acidente na pista gera trânsito infernal; mais um assalto fazendo vitimas fatais; inflação toma conta dos alimentos e você precisa planejar melhor os gastos domésticos; fuga de prisioneiros alarma população da cidade tal; policiais matam mais tantos em tiroteios... E por aí vai...

E o meu pensamento é que deve responder a isso com GPS especial, economista genial, psiquiatra de plantão e cardiologista portátil, além, é claro, de babás infláveis e supereficientes pra tomar conta das crianças hiperativas e estressadas por não saberem esperar os pais que não podem estar em casa disponíveis só pra elas.

Que pretensão a mais tenho que carregar pra depositar na minha mente o poder de acabar com todo e qualquer drama, ou congestões aparentemente ilusórias, do mundo da terceira dimensão? Sim, por que agora tem mais esse mito por aí... “Nada disso existe, trata-se de uma ilusão dessa dimensão onde você está e você pode dissolvê-la.”

Aha! Que mágica!

Ooohhhhhmmmm! E está tudo pago! Oooohhhhhmmmm! Comida na mesa, crianças limpas e calmas com os deveres de escola já feitos, marido chegando na hora pro jantar, de bom humor e pronto pra me ouvir e fazer amor cheio de paixão.

Mais um Ooohhhhhmmmm! e já estou de férias na Capadócia, passeando de balão e tomando banho de águas minerais turquesa... Mais um Ooohhhhhmmmm! e nem estou mais aqui nessa dimensão escrevendo sobre isso.


Imagens: Transparency, Francis Picabia; Woman With Binoculars In Road At Eye/Earth, Jude Maceren

Sandra Paes vive nos EUA
Nakedness

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4 comentários:

Debora Bottcher disse...

Sandra, querida,
Nem preciso reiterar sobre a beleza e realidade desse texto, não? Mas o faço mais uma vez, porque apesar de já termos discutido isso esses dias, esse seu olhar, mais detalhado sobre o assunto, amplia ainda mais o horizonte do caos cotidiano e da ilusão que pregam por aí.
De toda forma, o final roubou-me uma deliciosa gargalhada.
Adoro te ler, sempre.
Beijo enorme.

albir disse...

Que maravilha, Sandra!
Só peço que vc seja seletiva quanto às mágicas: vá de férias à Capadócia, mas não deixe de escrever nesta dimensão.
Parabéns!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Sandra... eu gosto da palavra mito. E sinto que há mais felicidade nos dias em que a gente se sente responsável por nossas vidas, responsabilidade que, para chegar aos atos, tem que começar pelos pensamentos. Experimente um pouco de mágica de vez em quando. :)

Anônimo disse...

Eduardo, me perdoe a sinceridade mas voce e um CHATO. Eu admiro a fotografia bela, jocosa e descompromissada que a Sandra faz de situacoes e estados de alma do ser humano. Isso e muito mais eloquente, fala muito mais ao coracao que a sua catequese jesuitica de pensamentos amansados para levar uma vida responsavel. E o pior de tudo e o seu tom condescendente que nao consegue ocultar a sua agressao invejosa de barata que morde e sopra...gosto nao, Eduardo. Pra gente como voce so muita magica de vez em sempre e uma longuissima viajem a Capadocia...se e que te deixam entrar...