sexta-feira, 4 de julho de 2008

Dez Anos (bebe da água) >> Leonardo Marona

Dez Anos é um senhor de chapéu de feltro, com tempo de pensar. Por quanto tempo passamos Dez Anos? Por quanto tempo dissemos “é tempo de pensar?” E depois pensamos. E passamos despercebidos pelas lesmas e serafins. Há quantos anos o último tombo intencionado? Lembrar da velha agulha, que aponta as idéias e também não perdoa, que assassina os próprios filhos em nome da compaixão.

Intelectualizar o que não se pode saber, saber o que não se pode intelectualizar. Quem tiver essa dicotomia presente no sangue e corrente nos erros terá o mundo sempre aberto e perigoso, mesmo escondido em casa, com chapéu de feltro, como Dez Anos. Dez Anos passou dez anos à janela. Ser a própria janela dos anos, moldura fictícia. Voltar a falar e, então, voltar a falar. Mas qual será o momento em que os nervos darão respaldo à prece?

O quase tombo dessa espécie de filho, é disso que Dez Anos fala à janela. A falta de conclusão sobre antigas lapidações, as córneas muitas vezes latejando em desespero burro, o lado áspero da flexão dos cotovelos sobre o pano gasto, é disso que fala Dez Anos em ruminação catártica.

Talvez também de um beijo fugaz e uma corrida para casa. Que casa? Talvez o estampado coração de quem vacila. Mas onde coração, onde amor, onde consciência? Fiódor irreparável no mais novo milênio, Cáucaso no Egito, Ramsés na Sibéria, ouvindo alto o que banhado em sangue é sussurrado. Anjo no reformatório, assassino de barba rala, o que nunca se aproxima, sempre recebe, o amante tolo, o equivocado das frases entrecortadas, o jubiloso desafio de morrer de si só, o não comparável arrebatamento por algo que mordeu e foge. Dez Anos tem um tempo para pensar no que não foi. Ao dobrar determinada esquina, Dez Anos significa o mundo que ficou aquém daquela esquina. O trágico dilema, o medo da morte e o afeto entre amantes, Dez Anos são pedaços espalhados pelo chão, à procura dos óculos, nenhum pássaro ao redor, que lembre o trecho de uma sinfonia russa.

Mas Dez Anos também não está morto e diz do alto da sua montanha de plástico: Bebe da água, meu amor, cede amor ao terminador de frases. Bebe da água, diz o título, que não é veneno e não é desse planeta, que é sem estilo, quase torto, sem cadência. Dez Anos é quase um personagem com garrafa de rum na mão caída e perda óssea no maxilar, batom escuro. Dez Anos usa o charme dos esquecidos, aquece o peito dos decapitados. Esquece o resto, Dez Anos, solta os suspensórios e enrola o teu cigarro de bolso – leva contigo as chaves mais nulas. Mas Dez Anos também levanta a pergunta:

E quando estiver seca a fonte, pagos os anos com pele solta, o que será então de Dez Anos, com os anos nas mãos como areia, o rosto feito lápide, o amor só das minhocas?


Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Oi, Léo! Cabra inspirado é assim: não espera nem a data certa do aniversário. :) Muito o que meditar sobre esse personagem Dez Anos. Bela sacada!

marisa nascimento disse...

Leonardo! Interessantíssimo esse jogo de palavras envolvendo todo o desenrolar da história do personagem! Muito bem escrito, como sempre!