sexta-feira, 25 de julho de 2008

Allegro ma non troppo >> Leonardo Marona


A primeira sensação que tive quando me desgarrei da família foi a de ter o cérebro se desmanchando em pequenas partes, as idéias se perdendo na gosma resultante. Não é uma cena muito bonita, nem tampouco lamentável, mas era poética o suficiente para uma pessoa parcialmente ridícula, como no fim qualquer outra.

E diziam que eu deveria sofrer, se quisesse escrever algo que prestasse. Mas eu só pensava nas glândulas cedendo, na epifania causada pelas letras tornando-se vagas e as células murchando, no desconsolo sem medida que vem da aceitação da verdade: seu cérebro já não mais está.

Pois eu sofro! E me coloco a sofrer. Porque sinto alguma coisa profunda e portanto patológica, que jogo no bolo das vaidades e junto a elas desmereço como algo superficial, mas está lá, me olhando sem olhos, mesmo que burilada ela está lá, ela que é meu berço e minha cruz.

De onde poderei mais esperar por adversidades? Da janela sem cortina apenas uma estudante de flauta transversa sem o menor talento, que chega a emocionar. Se os românticos hoje são extraterrestres de si mesmos, de um planeta que habitam e transformaram em piche, por causa da maldição de Strindberg, do sujeito que se suicida involuntariamente por pensar em coisas grandes demais, me sentia um homem oculto, dentro de uma pocilga onde varejeiras intermináveis chupam as feridas do Todopoderoso em cada um de nós. Agradecia por estar vivo. E na dúvida sobre que tipo de raiva, acariciava os gatos.

É mesmo algo bem ridículo, alguém pode pensar, mas se até hoje são encenadas peças de quatrocentos anos é porque pouco temos a dizer sobre a evolução da espécie. Alguns matam em nome de Deus, outros para matá-lo, para livrar-nos dele, para sê-lo, a grande piada. Me sinto magro, os ossos puxam e não sei se devo comer. Que estranho fenômeno será esse, da gente sugar até o talo, sem ganhar nada? As palavras me pesam, é melhor parar assim, sem avisar.


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, será que precisaremos ainda de séculos e séculos para aprender a escrever com alegria? :)

leonardo marona disse...

De fato, caro Edu, este saiu um tanto melancólico, mas eu acho realmente que somos injustos com os sentimentos, e tendenciosos ao escolhê-los, o que os dificultam de ser verdadeiros e profundos e os torna caricaturas ausentes de nós mesmos perante o mundo. isso é triste. e foi pensando nisso que resolvi escrever nesse dia. e deicidi não valorar se era um sentimento "bom" ou "mau", mas se era verdadeiro e estranho e, sendo ambos, servia. escrever com alegria é uma necessidade. Não me refiro à essa alegria dos filmes dos romances literários, mas uma alegria ainda mais funda na pele, que nos permite andar sobre o fogo com um sorriso nos lábios.

Carla Dias disse...

Pois é, Leonardo... A dolência é autora de muitos fados e reverbera em ímpares tangos. Se tivermos de dançar ao ritmo dela, que seja através de bons textos, como este teu.