quarta-feira, 23 de julho de 2008

CONFISSÕES DAS MULHERES DE 30 >> Carla Dias >>

Na quarta passada, fui ao Teatro Folha, aqui em São Paulo, para assistir à peça Confissões das Mulheres de 30. Fui completamente desinformada, a convite de uma amiga que gosta muito da série da qual três das atrizes do espetáculo fazem parte, a Mothern.

Eu não sabia, por exemplo, que Domingos Oliveira, incentivado por Priscilla Rozembaum e algumas de suas amigas que estavam na faixa dos 30, decidiu escrever este texto inspirado no sucesso de “Confissões de Adolescente”, de Maria Mariana, que transformou seus diários em livro que, posteriormente, foi adaptado para o teatro e se tornou um dos mais queridos seriados brasileiro dos anos 90.

Domingos de Morais deu forma teatral às conversas e às experiências íntimas que as atrizes colocavam no papel. Confissões das Mulheres de 30 é, como ele mesmo define, teatro depoimento. Também é comédia feita para quem sabe rir de si mesmo, quando as coisas andam bagunçadas por dentro.

Se em “Confissões de Adolescente” eram abordados temas que falavam diretamente aos jovens e acenavam aos pais formas de compreensão do universo dos filhos, em Confissões das Mulheres de 30 as três personagens, interpretadas por Camila Raffanti, Juliana Araripe e Melissa Vettore, se embrenham em um universo que cabe bem na alma da maioria das mulheres. As dúvidas sobre o que acontecerá a seguir, quando já se tem um passado e o futuro foi encurtado. A sensação de estar no meio do caminho, mas sem a menor idéia sobre o destino. Ser quem? E, claro, o amor... O homem, a busca pelo par ideal que, fiquem sabendo garotos, não precisa ser perfeito, mas sim honesto.



E tudo isso com um toque cômico que não sacaneia as encanações dessas mulheres que somos nós, mas sim cria um vínculo entre o público e as personagens.

O cenário simples, a iluminação bem executada nas transições, o figurino que, assim como o texto indica, mostra os humores da mulher que vive de cara com as transformações físicas e emocionais. O relógio que, de biológico, passa a ser somente o contador da duração de um casamento que já não tem fôlego para seguir adiante.

Mudar, adaptar-se, ser a solteira, a casada, a divorciada, a mãe, a libidinosa, a viciada em terapia... Se durante o espetáculo as gargalhadas pipocam, há também momentos criados para as reflexões catárticas. São sutis, mas estão lá, principalmente quando as atrizes deixam o palco e vão para o mezanino do teatro. É como se fosse a consciência dando conta do que vemos no palco, indicando que as mulheres de 30 são frágeis, mas nem por isso são derrotadas. Elas lutam, diariamente, em busca da compreensão sobre quem são e o que realmente desejam. E obviamente essa jornada é bem insana.

Confissões das Mulheres de 30 não é um espetáculo apenas para mulheres. Ao contrário, os homens, principalmente aqueles que adoram dizer que não entendem o universo feminino, poderão entender, de vez, que esse não é um universo para ser compreendido. É um improviso digno das big bands de jazz. É um cortejo, a bateria de escola de samba, a chuva caindo num fim de tarde de sábado. É inesperado, pungente e, definitivamente, atraente.

Confissões das Mulheres de 30 está em cartaz há 15 anos e, creio eu, ainda vá chegar e passar dos seus 30... Assim como muitas mulheres.




CONFISSÕES DAS MULHERES DE 30
Dramaturgia: Domingos Oliveira
Com Camila Raffanti, Juliana Araripe e Melissa Vettore
Direção: Fernanda D’Umbra
Supervisão: Eduardo Wotzik
Textos originais de Clarice Niskier, Priscilla Rozenbaum, Domingos Oliveira, Dino Menasche, Lenita Plonczinkski, Dedina Bernadelli, Cacá Mourthé, Clarice Derzié e Maitê Proença.
Figurino: Marina Reis
Cenário: Valdy Lopes JN.
Iluminação: Marcelo Montenegro


Local: Teatro Folha
Temporada: Até 14 de agosto
Horário: Quarta e quinta, às 21h
Ingressos: R$ 30
Duração: 60 minutos
Classificação etária: 14 anos



www.carladias.com




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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

"Esse não é um universo para ser compreendido. É um improviso digno das big bands de jazz. É um cortejo, a bateria de escola de samba, a chuva caindo num fim de tarde de sábado. É inesperado, pungente e, definitivamente, atraente."

Isso é que é honestidade, Carla. :) Eu confesso que bato palmas quando o improviso acaba, assovio quando o cortejo passa, ensaio uns passinhos de samba, bebo a chuva com a língua estendida para o vento e não consigo evitar ser sempre atraído tão certa, definitiva e inesperadamente por tamanha magnitude de estrela.

Marisa Nascimento disse...

Carla, você sempre trazendo Arte para nós!:) 15 anos em cartaz? É um bocado de tempo. Você conseguiu fazer cócegas na minha curiosidade e ansiedade em ver a peça. Tomara que venha para cá, um dia!

Carla Dias disse...

Eduardo,
Você é um dos poucos moços que acredito ser capaz de trafegar pelo universo feminino sem sair correndo ao perceber os disparates, as doidices e a intensidade dos medos e dos afetos... rs.

Marisa,
A peça é mesmo reveladora... Se aparecer por aí, não deixe de conferir. É como se olhar no espelho, rir de si mesma, desesperar, depois conferir ao tempo a sabedoria para seguir adiante; encarar as próximas etapas da vida.

Anônimo disse...

Excelente! Adorei a peça. Retrata bem a instabilidade emocional com ótimo humor e otimismo. Há tanta verdade em cada fala que com certeza muitas delas se encaixam perfeitamente nos meus 31...Claro que todos os homens deveriam assistir, não só pra se divertir, mas também, pra "tentar" filtrar as entrelinhas.

Anônimo disse...

Acabei de assistir à peça, e assisti porque foi bancado pela prefeitura (Festa do Teatro). O teatro Folha é maravilhoso, mas a peça ficou a desejar. A sorte foi contar com atrizes muito profissionais com um texto mediano. Opa e cadê o cenário? É moda peça sem cenário e manter praticamente o mesmo figurino do começo ao fim?
Estou sentindo falta de uma peça teatral inovadora e envolvente. Parabéns às atrizes que superaram o texto!

Anônimo disse...

Acabei de assistir à peça, e assisti porque foi bancado pela prefeitura (Festa do Teatro). O teatro Folha é maravilhoso, mas a peça ficou a desejar. A sorte foi contar com atrizes muito profissionais com um texto mediano. Opa e cadê o cenário? É moda peça sem cenário e manter praticamente o mesmo figurino do começo ao fim?
Estou sentindo falta de uma peça teatral inovadora e envolvente. Parabéns às atrizes que superaram o texto!

Carla Dias disse...

Anônimo 1 de 2008 (desculpe o atraso na resposta!)... Obrigada por deixar seu comentário. O espetáculo é mesmo muito bacana e vale a opinião de quem o apreciou...

Assim como a de quem não apreciou tanto assim... Caro Anônimo 2 2010! Na verdade, o que você achou mediano eu achei demais. Esse é o lado bacana do gostar, não? Porque achei o texto bem interessante e o cenário perfeito para ele. E espero que você encontre a peça teatral inovadora e envolvente que procura. É muito bom quando acontece! Obrigada por dar sua opinião : )