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FUTURO [Ana Coutinho]


Não sei se é um sinal, a idade, ou se sou algum tipo de profetiza moderna, uma escolhida, como Buda ou algo assim, fato é que me vejo o tempo todo pensando – e adivinhando - o futuro da humanidade, nossos ganhos e, principalmente, nossas perdas. É, de certo não sou nenhum Buda, talvez uma balzaquiana nostálgica e romântica, no máximo.

Adivinho, minuto a minuto, as frases que serão ditas no futuro. De repente, no meio de um dia comum a imagem me vem à mente: nós, no futuro, num tempo com menos paredes e mais medos, explicando para os nossos descendentes coisas tontas como: “Meu filho, antigamente, láááá pelos idos de 2008, existia nas ruas, telefones públicos aos quais chamávamos orelhão.” O neto olhará aterrorizado: “Como assim, vó? Era uma grande orelha?” “De certa forma”, eu responderei, velhinha: “Era um telefone que ficava no meio da rua, nas calçadas, em esquinas. Primeiro, meu bem, usávamos uma ficha telefônica, era como uma moeda que depositávamos no telefone e, assim, fazíamos a ligação. “O que é moeda, vó?” O menino me olhando com olhos curiosos.

“Não importa... Depois houve um tempo em que utilizávamos cartão, e, inserindo o cartão no telefone ele continha um valor com o qual podíamos ligar para as pessoas, entendeu?” O garoto talvez se assuste. Talvez ache excelente um telefone no meio da rua. Para que mesmo é que temos celulares se os telefones podiam estar fincados na rua? “Vó, vó, que idéia boa, vamos lançar isso de novo, um telefone na rua, ninguém mais precisará de celular!” Será difícil convencer o pequeno rebento que a idéia não é boa?

Ou, como contar às próximas gerações que em um outro tempo existiam pessoas gordas? Sim, porque com essa onda de redução de estômago, lipos e afins, é óbvio que os gordos desaparecerão. Seremos uma nação de beldades, todos magérrimos e lindos, se é que o lindo de lá ainda vai ser o lindo daqui. Talvez os que estiverem já na metade desse século que se inicia, veja em um livro antigo, ou em telas transparentes que surgirão nas ruas, em alguma enciclopédia qualquer, a imagem de um gordo. Quem sabe do Faustão ou da Claudia Gimenez, ela mesma já é uma das últimas de sua espécie. O homem do futuro tomará um susto: “O que é isso, um homem grávido?” Haverá algum de nós, para explicar que não? “Não é bem assim, as pessoas comiam coisas deliciosas e engordavam, ficavam pesadas e, muitas vezes, absolutamente felizes... Mas daí vieram as cirurgias. Ah! elas também Eliminaram do mundo a miopia... Os óculos de grau já estão em extinção, os pobres.”

Talvez seja complicado explicar que usávamos essas coisas no rosto porque nem todo mundo nascia enxergando perfeitamente. Quem sabe os óculos escuros se perpetuem para servir como exemplo de uma época longínqua. Porque as coisas hão de desaparecer...

Ou, se não formos nem tão à frente assim no tempo, hoje mesmo, já há representantes da próxima geração que não conhecem milho de pipoca, nem telefone de disco, muito menos o disco mesmo, de vinil. A propósito, os discos de vinil são para nós o que serão os Cds para os próximos. Os adolescentes de 2030 irão ouvir dizer que, um dia, houve CD. “Como assim?”, perguntarão confusos. Há de haver alguém que diga que CD era um objeto redondo e grande (sim, o pequeno de hoje é o grande de amanhã) que usávamos para ouvir música. Como eles usam o I-pod e os I-coisas que vierem a ser criados até lá e dos quais seremos absolutamente dependentes. E como seremos dependentes...

A dependência que temos hoje, do celular, será a mesma que teremos de coisas como o GPS, por exemplo. Quando formos velhos, em uma mesa de bar (esses devem ser eternos) iremos papear dizendo: “Como pode... Um dia termos vivido sem GPS?” - um dirá ao outro, entre cervejas (ou sucos orgânicos?) “Como chegávamos aos lugares, como nos encontrávamos, como saíamos de casa sem GPS?” Será um espanto que, um dia, tenham existido guias de ruas, esses azuis, que já andam meio desaparecidos por aí...

O futuro, dizem, deve ser caótico com relação aos problemas climáticos. Talvez expliquemos para os mais jovens que houve no mundo uma época em que o ano era dividido em 4 estações, ou pelo menos diremos que elas existiam de fato. “Em julho, meu bem, fazia frio no Brasil!”, diremos, velhinhos, encurvados e calorentos, lá pra 2060...

O tempo há de nos pregar muitas peças. Não teremos mais pêlos, porque eles, desde que as cavernas não foram mais habitadas, também perderam a sua função. Talvez não tenhamos mais pequenos prazeres, talvez descobriremos novos, e grandes. Se alguém me vir por aí, passando dos 100 daqui a uns 70 anos, abriremos de novo esse relato tolo, e, entre uma pílula e outra, conversaremos desse tempo de hoje que, muito velozmente, nos escapa das mãos.

Imagens: Woman Holding a Crystal Ball, Roy Botterell; Bookworm, Angie Hill; Hands Holding Prism, J. James

Comentários

Marisa Nascimento disse…
Ana, excelente sua criatividade! Acho que preciso urgentemente aprender a usar um GPS. ;)
Ana, seja qual for o tempo, ainda haverá uma Ana contando boas histórias. :)
albir disse…
Tão velozes são as mudanças, Ana, que hoje quando falamos de certas antigüidades, disco de vinil por exemplo, já não se assustam com o que ouvem, assustam-se conosco.

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