quarta-feira, 9 de julho de 2008

ANJOS POR ACASO >> Carla Dias >>


Quando se nasce e de nascido experimenta-se a gana por vida. E a curva indica perigo ou já aponta o acidente. Quando se nasce assim, desse jeito um tanto quanto desmedido, vem logo o rótulo e gruda na cara da gente. Mas quem disse que queremos abrandar a dor e costurar as feridas?

Não buscamos cicatrizes, veja bem... Queremos mais é que não haja corte. Então, que tal fazer a corte a essa paz que não tem rótulo como este que foi grudado na cara da gente?

Porque quando se nasce cuspido, sabe? Caindo em qualquer canto da vida e lambuzando-se de abandonos. Quando se nasce assim, logo nos cravam as tachas nas mãos e crucificam nosso futuro. Não que queiramos pular nossa infância, caindo logo de cara no futuro das responsabilidades e ilusões adultas... Queremos sim celebrá-la até que, na idade adulta, nesse futuro mais catártico do que brincante, nós possamos sorrir sem as fendas que nos causaram as tristezas pirracentas.

Entende o que digo?

Espalharam por aí e por milênios, que é preciso doer o diabo para compreender a lição. Carecemos mesmo do dolente aprendizado? Porque também sorrindo aprendemos o afeto. E apesar da compreensão sobre sermos distraídos quando embalados pela felicidade, queremos mesmo sangrar para lidarmos com futuras alegrias?

Quando se nasce assim, em qualquer lugar, sem laços que acolham ou abraços que acalmem, muros altíssimos vêm de brinde. Alguns de nós, espertos que só, aprendemos a ficar em cima deles, observando o movimento. Outros não têm tanta sorte, e dão de querer derrubar os ditos. Passam a vida tentando transpassá-los. Poucos alcançam este objetivo.

Você me ensinou a duvidar da sorte e confiar nos bons ventos. Tirou de mim o absolutismo, essa certeza falseada. Senti-me livre... E eu que nasci às avessas, comprometida com as profundezas dos sentimentos, devo-lhe o exorcismo de um rótulo e outro; de um abismo e outro. Devo-lhe a ousadia do meu desejo, não de ficar em cima do muro ou socá-lo até ferir as mãos, mas sim o de me reinventar com asas.

E o mais tocante disso tudo é que não precisou muito. Bastou que acreditasse na minha existência; que me chamasse pelo nome, concedendo-me identidade... Que escutasse o que eu tinha a dizer.

Quando se nasce assim...

Vou fazer uma dobradura e colocar no pires, junto a sua xícara de café quente. Nesse papel cor de sol, haja o que houver, perdurará meu sentimento de gratidão. Sou grata a você por ser quem é, porque quando se nasce embalado pelo desconforto das máscaras, a honestidade do olhar conquista não só a alma da gente, mas também parte da nossa ideologia. E nos dá fôlego. E nos alimenta de capacidade para seguir adiante.

Pessoas também podem ser anjos por acaso.

Imagens: do filme Asas do Desejo, de Wim Wenders.

www.carladias.com


Partilhar

7 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Carla, eu não tenho mais dúvidas: Você nasceu junto ao nascer do sol! Suas palavras têm um brilho que não é deste mundo...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Carla, "Asas do Desejo" está entre meus filmes favoritos. E esses seus sentimentos alados fazem cócegas em meus pensamentos. Depois do festão de 10 anos, coisa boa é retomar a vida com esses anjos rasantes. :)

Carla Dias disse...

Marisa: Obrigada pelas belas palavras. Pensar em ter esse brilho sobre o qual você fala me aquece a alma.

Eduardo: Asas do desejo é um dos meus filmes preferidos, também. Há tanta poesia nele... E os anjos escancaram com a humanidade, não? Expondo-a com um olhar de quem deseja conhecê-la de perto... De dentro.

albir disse...

Não, não queremos sangrar para lidar com alegrias futuras ou presentes. Mas disseram-nos que sim. E essa "verdade" não é a única, emborta seja talvez a mais dolorosa. Exorcizemos os rótulos, os abismos e as "verdades". Concedamo-nos identidade.
É ótimo, Carla, refletir com você.

Carla Dias disse...

Obrigada, Albir...

Não só por refletir comigo, mas também por me permitir entrar no seu universo e provocar essas reflexões.
Obrigada por ser bem-vinda.

zuuka disse...

Anjinha Carla , prazer te conhecer, copiei para reler, para anunciar voce aos amigos!
Parabens.
Amo cronicas, amo escrever.recomendo que lei Helena Ximenes Tompakow Terra( Annick Yeats)=( minha filha) q escreve cronicas q vai fazer voce "viajar" !(Livraria e loja virtual Asabeça).
Vou ler TODAS as suas.
Um perguntinha.Voce joga RPG?
Super abraço de uma fã que nasceu hoje.

Carla Dias disse...

Zuuka... Prazer em conhecê-la, também : )

Para quem ama crônicas, o Crônica do Dia é uma sala de estar bem arejada. Portanto, entre e se sinta à vontade. Também espero poder ler algo seu... Mande! Meu e-mail carladias@carladias.com.

Vou conferir sim a autora que você indicou. Ainda não conheço os trabalhos dela, mas um convite pra “viajar” é sempre bem-vindo.

Não... Eu não jogo RPG. Pelo jeito você joga...

Um grande abraço e obrigada por me ler.