quarta-feira, 2 de julho de 2008

DE LÁ PRA CÁ >> Carla Dias >>

Os últimos dez anos me levaram a enveredar por buscas obscuras, eu confesso. Mais de uma vez desapontei a loucura sendo irritantemente sensata; e me mantive estática quando o ideal era chutar as canelas das situações. Segurei o choro pra abrir o berreiro só lá em casa... Sozinha. Deixei de dizer as palavras que me engasgavam para engoli-las... A seco.

Nesse tempo, um amigo perdeu a luta para o câncer, aos quase vinte e cinco anos de idade. Engraçado, tragicamente engraçado, quero dizer, é que nunca fui ao hospital visitá-lo. Ficava mal com isso, mas depois aceitei que as amizades são distintas. Ele gostava que nos falássemos por telefone, sem que fosse possível que eu pranteasse a decadência física dele. Tínhamos ótimas conversas sobre música e literatura, sobre os bons tempos em que nos encontrávamos para tocar juntos; sobre o livro que ele começara a escrever. Eu consegui ser somente essa pessoa para ele, mas me permito pensar que foi o suficiente, naquele momento.

Conheci muitos dos meus ídolos da música; acompanhei vários seriados de televisão. Assisti ao filme “A lenda do pianista do mar” e me apaixonei pela história do menino, criado em um barco, que se torna um excelente pianista, mas teme ter de encarar a terra firme, depois de adulto.

Nesse meio-tempo, também perdi minha avó materna, Dona Anita, pessoa muito presente na minha vida. Mas ainda recordo da gargalhada dela, e de quando cozinhava feijão no fogão à lenha, ouvia a missa das seis, assistia a novela... Depois de eu assistir Sítio do Pica-Pau Amarelo, claro!

E descobri a poesia de Manoel de Barros... Passei a ser cronista do Crônica do Dia, minha agradável lida da escrita.

Na última década, mudei-me de casa três vezes; escrevi boa parte dos dezoito livros que engavetei. Fiz curso de inglês, dei aulas de bateria; abandonei o instrumento e hoje tento reconquistá-lo. Reencontrei um amigo muito querido, perdi de vez a amizade de uma pessoa a quem queria bem demais. Tive uma lista interessante de amores platônicos, mas como sempre digo a minha mãe, Al Pacino continua no topo dessa lista! Acho até que ela realmente espera que ele apareça para um dos almoços de domingo.

Nos últimos dez anos, nasceram quatro dos meus seis sobrinhos. Eles vêm me ensinando que os mistérios da vida, às vezes, são apenas dúvidas adultas sobre a simplicidade das coisas, já que, crescidos, tendemos mesmo a complicar. Beijar-lhes as faces, carregá-los no colo, ouvir as palavras ditas pela primeira vez; contar histórias inventadas na hora, ter de responder às perguntas mais cândidas e às mais inesperadas, também... Esse processo foi me transformando em uma pessoa que aprecia a simplicidade; que se enamora dela, apesar da densidade da minha alma e daqueles abismos particulares que cultivo. E essa simplicidade vem me salvando de mim mesma e com freqüência.

Plantei girassóis que não vingaram, mas presenteei muitos com esses sorrisos em flor. Fiz poucos, mas verdadeiros amigos.

Se em segundos a vida da gente pode mudar totalmente, o que dizer sobre 10 anos?

Nessa década, aprendi e desaprendi... Atei e desatei alguns nós... Falei e calei... Cai e, antes de me levantar, sonhei.

www.carladias.com

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10 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Oi, Carla!

De lá pra cá é a mesma estrada: a crônica de tantas outras crônicas. Tanta coisa olhando assim pra trás, e já é hora de olhar de novo pra frente. Olhar pra baixo com um pouco de cansaço. Depois olhar pro alto pra sondar o real destino. Que bom que em você muito passa pela palavra e chega até nós.

Carla Dias disse...

Ainda estou no "olhar pra baixo com um pouco de cansaço", o que sempre nos permite alcançar a beleza que se esconde. Mas sinto que, logo mais, será "olhar pro alto pra sondar o real destino".

Marisa Nascimento disse...

É, Carla...
Nos últimos dez anos eu vim, pelo acaso que não existe, parar no Crônica do Dia e, desde então, tenho os dias muito mais preenchidos.

Debora Bottcher disse...

Carla, querida,
Que resumo bonito... Acontece tanta coisa na vida, não? E o tempo passa implacável...
Aproveito pra dizer que adorei o projeto especial de dez anos do seu site - um show! Parabéns pela iniciativa e por me incluir.
Beijo enorme.

Paula Pimenta disse...

Ei Carla, adorei essa sua retrospectiva, especialmente o último parágrafo, sonhar é essencial!

E como a Debora, queria também te parabenizar pelo especial do Crônica,ficou muito bacana!

Beijo!

Rubia disse...

fofinha... amei!!!
beijinho
Ru

cacau disse...

Lindoooo!!! Que venha mais dez e vc aqui pra alegrar os nossos corações com essas crônicas MARAVILHOSAS...


Bjão e Parabéns!!!

albir disse...

Lendo suas crônicas, Carla, fico pensando se você não está cometendo algum crime de lesa-humanidade ao engavetar dezoito livros.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, "crime de lesa-humanidade" é ótimo. Se precisar de "testemunha" nesse acusação, pode contar comigo. :)

Carla Dias disse...

Marisa: tê-la por aqui é sempre bom. Que seus dias continuem sendo preenchidos com aquelas coisas boas que desejamos para ter a alma livre.

Débora: em dez anos não é só água que passa por debaixo da ponte, né? Às vezes, nós mesmos temos de nos encolher, segurar o fôlego e fazer este trajeto. Mas bom é saber que tudo pode dar naquela sabedoria capaz de amansar a alma da gente.

Paula: Realmente sonhar é essencial. Ainda que o sonho não vingue, sonhá-lo lapida nossa capacidade de receber aquilo que a vida nos oferece.

Débora e Paula: Foi um prazer poder homenagear o Crônica do Dia lá no Improvisos. Parabéns para nós, mais uma vez!

Rubex: Obrigada pela visita : )

Cacau: Que eles venham para que possamos tecê-los em bons ventos.

Albir e Eduardo: Também gostei do “lesa-humanidade”... Se eu escrever um livro a partir daí, vocês já sabem de onde veio a idéia, né Albir?
Tá aí um crime que nunca planejei cometer: engavetar livros. Ainda por cima em uma gaveta virtual, com sobrenome doc ou rtf. Porém, mais do que publicar, escrever é uma necessidade que me pega pela mão e caminha comigo, o tempo todo. Às vezes ela me dói, mas quase sempre, me sorri com os olhos coloridos.