sexta-feira, 18 de julho de 2008

Uma cena como outra qualquer >> Leonardo Marona

É só dobrar a Marquês de Olinda com os pêlos do braço eriçados porque você está ouvindo Nick Drake cantando what would happen in the morning when the world it get so crowded that you can’t look at your window in the morning e isso te emociona de uma forma patética então o peito infla, os pés parecem muitos, mas basta dobrar e olhar para debaixo do viaduto que você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer de cada dia num lugar onde estão todos à espreita, prontos para correr ou te enfiar uma faca pelas costas, e basta olhar, não com muita atenção, para o viaduto em frente à saudosa Rua Marquês de Olinda, provavelmente em homenagem a um saudoso vigarista, e você não verá nada de novo, tudo como uma cena qualquer, roupas gastas balançando ao vento sobre pedaços de coisas ainda misteriosas e cerca de oito meninas de rua, já acima dos seus quinze anos e com corpos fortes como os daquele tipo de cão de corrida, você verá cerca de oito dessas meninas sem moral muito bem definida com garrafas de plástico com cola de sapateiro nas mãos, rindo enquanto outras duas se dão socos aleatoriamente, como numa rinha de galo, algumas já sem forças, mas ainda bondosas, tentam apartar a briga e têm igualmente os cabelos puxados e as cabeças arremessadas ao chão, e de repente outra mulher, puro osso, mais velha, se aproxima e segura uma das meninas-lutadoras pelo braço e não há mais tempo para ver a cena, é preciso seguir em frente quase como um fluxo mecânico, e na seqüência há um policial entediado ouvindo lorotas de um velho vendedor de flores que à noite trafica discretamente cocaína, e além dele existem homens que não se vêem lavando vidros sobre os prédios que se envergonhariam das tramóias que escondem, se pudessem, mas não podemos então seguimos, e estamos atrasados para um compromisso de vida ou morte, ao lado um senhor que teria sido um belíssimo Duque de Winchester raspa freneticamente com uma tampa de garrafa a tampa do esgoto municipal, com uma gana de torcer os dedos e pingar a testa ele raspa olhando fixamente para a inutilidade do seu esforço, ele não tem nenhuma sinfonia para ouvir, amigos com quem debater futilidades da vida comum, ele perdeu os filhos e os netos, ele raspa porque não agüenta mais, e isso não é nada de novo, uma cena como outra qualquer e dois garotos metidos a espertos entram na loja de conveniências para roubar balas de fruta e eles sabem que podem ser pegos, mas a vida é um velho oeste ilimitado, então resta seguir e tentar absorver o mínimo, uma freira conversando com um bêbado, as flores da tarde ainda não nascidas, mas alguns já velhos demais esperam impávidos e eu me sinto velho e uso a mesma calça há oito anos, uma excelente calça, eu penso, e isso me enche de confiança, então se começa a estalar os dedos porque talvez seja aquela música muito bonita que John Lennon fez para o filho, life is what happens to you while you’re busy making other plans, e aquilo me parece mais uma vez extremamente enigmático, mas não há tempo para mais nada, resta apenas entrar no edifício, desmarcar o compromisso o qual já se perdeu, sentar e escrever sobre algo que já não é mais meu, e é de quem quiser.


Partilhar

3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Oi, Léo! Apelar para o velho e ótimo Nick Drake é covardia. :) E sua prosa dessa vez me lembrou Helena Parente Cunha e suas Doze Cores do Vermelho (conhece?). E, por incrível que pareça, eu também tenho uma calça há oito anos, uma calça que sempre uso com prazer. E foi.

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, estrutura textual perfeita! Como consegue escrever pontuando apenas com as vírgulas? Você é o cara! :)

Carla Dias disse...

Foi como ver um quadro ler sua crônica.

Depois respirei fundo e fui escrever algo que já não é mais meu... A imagem desse quadro clara na minha cabeça.