quinta-feira, 3 de julho de 2008

DEZ ANOS, O PÁTIO E AS CEBOLAS VERMELHAS DO TEMPO >> Silas Correa Leite

“A terra é tapete por um lado e cobertor por outro(...), apenas uma fronteira estreita entre aqueles que a pisam e aqueles que são cobertos por ela(...), entre os exércitos do movimento e os do repouso, duas multidões unidas por um esquecimento mútuo...”
(Jésus del Campo)


Meu Deus, Dez Anos! Parece que foi ontem. Será o impossível? Tanto tempo se passou... o primeiro beijo que te dei... eu, ali, esperando no pátio, não me lembro mais o quê: uma carta, uma flor, um espelhinho, uma placa de captura, uma nave, um pedaço de bolo de morango silvestre com nozes, alguém que dissesse sim ao meu sim? Faz tanto tempo que eu acho que nem sei se queria lembrar. As esporas da vida. Os fantoches da alma. As cebolas do tempo. Espectros nesse fio-terra da memória sendo descascada...

Só me lembro que o pátio tinha um sol de Marte. A laranjeira florida, pardais de peito dourado, um fox-trot na vitrola do vizinho, a foto em polaroid, eu era inocente, puro e besta, virgem como uma nuvem, tinha todos os sonhos do mundo, Elis, Lennon, todos eram vivos, eu relia Érico Veríssimo, o pai afinava a corda mi num diapasão achado na rua, o vento frio era sulino e eu tinha toda aquela inteira e enorme primavera para me aceitar como era. Entre a sombra e a escuridão, aquele pátio aberto... aquela escada para o céu... aquele silêncio sem documento... aquele... aquilo... aquarela: Nós.

Dez Anos? — Não se enxerga? — diz minha alma nau. Olho e não acredito. O calendário das Lojas Riachuelo rebobinado me despertou. O amor foi um rio que passou em minha vida. Estou só e aprendi a ser só. Os anos de chumbo. A abertura. E tudo de novo: golpes, guerras, impunidades, o cabresto curto da moral da mídia leviana, o circo Brazyl Sociedade Anônima, e eu aqui, avesso de um alpendre qualquer, lembrando como se naquele mesmo pátio, esperando o que não veio (ou se veio não vi), olhos vermelhos, neuras, não me deram limões, eu fiz limonadas de lágrimas, e ainda aqui descasco as cebolas vermelhas das memórias...

Dez Anos! Não acredito. E aquele amor impossível? A vulgarização do afeto que já não mais se encerra em meu peito pouco juvenil, a banalização da violência; brinco que como poeta não tenho terceira idade, tenho terceira infância, mas o sol é de vênus (e se pondo), o crepúsculo dói, eu deveria ter morrido de cirrose como o Lupiscínio, ou de porre como Noel Rosa no auge, e escrevo, escrevo um poema triste, uma acontecência surreal, mais um pedaço de mim, como uma agulha na carne do tempo-rei:


La Vie En Rose

Leminski morreu de poesia
Ou de cirrose; se vivo fosse
Naturalmente um outro seria
Talvez vencedor de posse
Caetano que fugiu pra Londres
Não morreu e se socorre
A escrever bugigangas hoje
Como se nunca existisse
Hendrix, Joplin; até Cazuza
Se não morresse o que seria?
Lupíscinio não se fez num dia
Só no infinital da boemia
Renato Russo, Torquato, Capinan
Um parafuso a mais tantas vezes
(Ou o anonimato de uma neura vã
Em celeiros de burgueses?)
A vida é cor-de-rosa na juventude
Depois o decrépito vive amiúde
E na velhice a arte louca vegeta
Artista, vanguardista, poeta

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Morrer criando toda glosa
Em verso e samba e prosa
Foi o clímax de Noel Rosa
Idolatrado

Morrer de velhice por aí
É muito triste ao condenado
Feito Caimy ou Cauby
Cada um de si mesmo em si
Beirando ser esclerosado.

Melhor morrer no auge a criar, de overdose
Jovem portentoso - no suicídio ou na cirrose

Ou restar-se à decadência vil, pobre coitado
E à existência reles e comum ser condenado

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Dez anos. Só acredito vendo. O espelho, o espelho! Nas paredes das memórias, o cálice transborda: quem sou eu? Melhor: O que restou de mim?Eu bem que dizia, quando um guri ainda (que amava os Beatles e Tonico e Tinoco) que não esperassem mais de mim do que eu mesmo esperava de mim. Penso, sinto e descubro: o que sou é uma seqüela do que fizeram de mim, do que eu fiz a partir do que a vida fez comigo. Que lugar é esse? Que lugar sou eu? Não sei. Talvez um não-lugar. Um não-ser? Já pensou? (É morrendo que se nasce no pátio de Deus, no céu de todas as origens, orquestrações e pertencimentos de amor e luz.)

Como se passasse uma fita em minha cabeça, e um filme começasse do fim, ou do re/começo, e eu ali no (mesmo?) pátio, e alguém a esperar por mim (vindo de algum lugar do passado), e sinto/penso/capto (loucura?) que esse VIR me beija, diz que me ama, embarcamos (um sonho, uma estrada de tijolos amarelos?) e vamo-nos por alamedas de ipês roxos; há uma mazurca no ar, cavalos brancos nos campos, cercas caiadas entre trigais, e há ainda um enorme pátio, pátio do começo, pátio do meio, e pátio do fim, e, quem são essas pessoas chorando, esses hinos, essas velas, essas coroas de flores, essa menina-anjo que debruçada sobre mim fica a pensar, cismando que tudo começou num pátio, e abraça os filhos órfãos (meus filhos!), e os amigos, e há choro e ranger de dentes, e o céu agora é de jade, e lá, num enorme pátio, o meu livro da vida será lido – serei pesado na balança e posto em julgamento – poemas, blues, crônicas, páginas de rosto, e então eu finalmente compreendo que estes dez anos eu estava para ser desperto do sono da morte, para finalmente ser libertado, e reconduzido ao recomeço de tudo, a eternal e perene roda da vida, ah... tudo outra vez, de novo a mesma praça, o mesmo banco, a mesma música, o mesmo jardim do éter, a mesma banda, a mesma familia, a mesma mulher, a cândida e serena amada musa...

E aquele beijo que te dei no Pátio.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Silas! Essa combinação de mulheres e pátio é irresistível. Faz dez anos passarem num segundo. :)