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DESORIENTAÇÕES [Sandra Paes]


Ontem acordei com uns números na cabeça. Loto? Nao, eram apenas três e me parecia mais alguma referência de latitude, longitude, algo que apontasse para algum lugar no mundo. Ou eu assim quis interpretar. Aproveito a curiosidade: onde está o Atlas de astrologia? Tempo que não consulto isso... Por onde começar? Talvez a latitude... Abro, viro páginas e aparece no mapa: Iraque! Nãhh, não pode ser... Me recuso a focalizar a mente nesse lugar tão controverso e as letras começaram a embaralhar e a sumir de foco...

Ando desorientada até dentro de casa. Chego na cozinha e não sei o que fui fazer lá. Outro dia, me perdi dentro do supermercado; olhava para os corredores, tentava ler as placas e conferir os produtos pra localizar... o que mesmo? O que fui comprar lá, afinal? O que estou fazendo aqui com esse carrinho na mão?

Houve uma época em que fazia mapas de cabeça; em dois segundos localizava cidades, planetas em suas casas, aspectos e tal. Morava dentro de mim um astrofísico com astrolábio e tudo.

Compras? Sempre soube onde achar o que em que prateleira, e imagine, me perder na própria cozinha? A ordem e seqüência das coisas é algo claro demais. Por isso cozinhar é mais do que natural - brota naturalmente a combinação dos sabores e temperos e sei exatamente a ordem de por tudo.

Sabia... Já não sei mais... Pude constatar isso facilmente tentando fazer uma carne aux fines herbs avec french beans. Parecia uma eternidade achar as coisas. E sal? Já pus na carne? Talvez? E se não? Basta provar, mas não é bem isso... é a desorientação: mais um item a ser notado.

Enfim... final do dia... convite pro churrasco. Pretexto pra um encontro de novas pessoas, outras associações. Chega por e-mail a pergunta: “Você vai? Quero te ver lá!”

E eu me pego relutante... Ai, ai ai, dirigir no final da tarde, pouca luz, lugar novo. Houve uma época que qualquer aventura era motivo de pôr o pé na estrada... Descobertas! Oba! Agora, me flagro relutante... O que é isso?

Respondo que vou fazer o que puder pra ir. E assim tomo banho, procuro algo pra vestir e pronto. Como? Já se passaram quase duas horas? Eu nem vi. Mais uma desorientação. Sempre fiquei pronta em 15 minutos no máximo. Dessa vez, nem percebi. Por via das duvidas, anoto o endereço num papel, assim fica mais fácil ou assim parece ser quando se quer se acercar de “segurança”: em caso de esquecimento, pega-se no bolso o papel e pronto.

Não me dei por satisfeita. Pego o celular e ligo o GPS. Digito o endereço e espero o resultado - assim vai parecer mais fácil... Qual o quê... Depois de rodar algum tempo, percebo que o que leio na tela não corresponde ao que leio nas placas. Será?

Quanto tempo já se passou? Já está anoitecendo, ficando mais difícil ler placas... Mas espera aí? Esse passo aqui me manda de volta pra onde eu estava... Mas como?

Melhor ligar pra alguém.

“- Alô? Como está tudo aí?”

“- A comida tá ótima. A noite tá linda, e tem algumas pessoas... Onde você está? Ouvindo música?"

- Estou no carro.

- Mas em que rua?

- 441 North com...

- Não sei onde é isso... Espera aí que vou passar pra dona da casa...”

Não tive tempo pra dizer mais nada. A dona da casa faz a mesma pergunta, mas a essa altura já não estou mais na mesma rua. Ela pede que eu pegue a Palmetto Norte. E eu respondo que essa rua tem apenas leste e oeste e não sabia como pegar norte ou sul.

Percebo de imediato que falamos línguas geográficas diferentes. Me lembro das orientações dadas no Brasil onde os pontos de referência são uma padaria do “Seu Joaquim” ou o supermercado X. Se você não sabe como localizar isso, não sabe nada.

E foi como me senti. De repente tudo ficou complicado. Agradeço e decido voltar pra casa. Começo a revisar a motivação da saída, do jantar, e não encontro na minha cabeça. Lugar complicado onde tudo começou..

Toca o celular de novo. Era minha amiga perguntando se eu já havia me localizado; eu disse que não... Não conseguira entender os sinais que a dona da casa dera.

Decepcionada ela diz: “Como não?” E repete as mesmas informações. Percebo novamente minha desorientação, e descubro que nada adiantaria explicar nesse momento. E digo: “- Estou com dificuldades...”

- Mas você não tem GPS?

- Sim, mas estou lenta e tá complicado ver o GPS e as placas das ruas ao mesmo tempo... Não estou dando conta...Vou pra casa... Sinto muito...”

E ela , com voz caída, diz: “- Está bem! A gente se fala outra hora então.”

Afinal, chego em casa - um lugar que ainda parece conhecido e reconhecível. E pra que tudo isso? Conseqüência do stroke que vivi há três semanas atrás. Ninguém soube, ninguém viu, ninguém avalia. Terremotos internos tiram sua identidade, reviram seus sonhos de cabeça pra baixo, rasgam os mapas que você pensa que conhece e esfrega na sua cara que oriente e ocidente é apenas coisas dos homens nessa Terra dividida em pedacinhos, que depois foram colonizados, que depois passaram a pertencer a um povo, a uma colônia, a um grupo qualquer... E com os anos, foram ganhando nomes e mais nomes, e números, muitos números, e diferentes donos , tudo provisório, mas é assim mesmo, porque a seqüência das coisas é feita assim.

Se o cérebro não reconhece, o que existe onde? Lugares, horas, acontecimentos. Latitudes e longitudes... Que números são esses?
Tudo de novo? E eu tendo que dizer meus números pra me saber socialmente incluída, historicamente pertinente, politicamente qualquer coisa, sexualmente orientada, culturalmente atualizada, profissionalmente realizada, uma cidadã... O que mais?

“Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul”- diria a canção. Mas o céu de hoje está nublado e aqui dentro também só tem nuvens.


Imagens: Hand with Compass, Robin Bartholick; Sundial, Huge Carrot; Eye in the Sky, Huge Carrot

Sandra Paes vive nos EUA
Nakedness

Comentários

Debora Bottcher disse…
Ai, Sandra,
Vez ou outra me sinto assim também - totalmente desorientada. Será coisa da idade ou só um eventual estado de espírito? :)
Ótimo texto, como sempre.
Beijo.
Sandra, não sei se era sua intenção, mas seu texto me deixou desorientado. :)
Marisa Nascimento disse…
Sandra, estar orientada não tem sido lá uma tarefa muito fácil nos dias de hoje. Ótima percepção a sua!
Carol Barcellos disse…
Uau, o texto está tão bom que a sensação da desorientação fica muito nítida mesmo, como o Eduardo disse...olha, eu me identifiquei muito. Várias vezes já me senti assim, de formas diferentes. Às vezes, dura o dia inteiro, outras vezes, só algumas horas, e outras vezes, ainda, apenas alguns minutos. Mas a desorientação nos faz perder a noção do tempo...e quando a gente volta, está tudo mesmo mais nublado. E refazer o dia ensolarado dentro de nossos corações é mesmo um trabalho árduo.

Beijinhos doces cristalizados!!! ;o*
Carla Dias disse…
Sandra,

Às vezes não é para chegarmos mesmo ao destino que traçamos para determinado dia. Quando nos sentimos desorientados, também buscamos coordenadas para aprendermos a lidar com o que estava fora dos planos, ou o que foi modificado pelo gosto da vida e não do pelo próprio.

Desorientar-se também aponta novos rumos... Faz com que tiremos coisas dos lugares, que percamos o sentido de situações. Permite-nos reconstruir o que foi tido por certo.

Sem querer ser demagoga: desorientar-se também pode ser a chance de se encontrar. E quem lhe diz isso é alguém que nunca soube compreender mapas, tampouco usar receitas.
Ou, como diz meu caro amigo Fabiano dos Santos, "me encontro nas coisas perdidas do mundo".

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