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MEXERICA, AMOR E VESTIDOS >>Carla Dias>>

Minha mãe sempre trabalhou. Ainda criança, foi pra roça ajudar os seus pais, assim como os outros filhos deles.

A primeira lembrança concreta que tenho da minha mãe não remete à época em que ainda era carregada no colo por ela. Na verdade, a lembrança mais antiga é de vê-la sentada na porta de casa, descascando cana para eu, meus irmãos e primos chuparmos; ou fazendo bonecas de sabugo de milho para as meninas brincarem.

No terreno, nessa época, havia somente três casas. A dos meus avós na frente, a minha no meio e da minha tia nos fundos. Tínhamos plantados, no quintal, pés de cana, milho, mexerica, chuchu. Minha mãe sempre adorou cultivar... Ela sempre teve proximidade com a terra. E cuidava muito bem das plantas e das flores.

Minha mãe foi costureira. Varou noites trabalhando para cumprir prazos. Lembro-me que nossa sala se transformava em oficina de costura. Mas isso continuou, mesmo depois de ela mudar de emprego. Minha mãe gostava de criar coisas... Gostava de costurar.

Crianças, eu e minhas irmãs e irmão usávamos roupas de segunda mão que ganhávamos de familiares e amigos. E não sei por que, mas posso não me lembrar de pessoas da época da minha adolescência, mas me lembro de adorar usar vestido e calças compridas ao mesmo tempo... E os longos casacos de lã da minha mãe. Obviamente, isso não me tornou a menina mais charmosa da escola.

Uma vez, eu e minha irmã mais velha não tínhamos vestido para ir à Festa Junina da escola. Iríamos participar da quadrilha e o dinheiro era curto. Minha mãe não teve dúvidas: fez os vestidos da cortina da sala. E ao contrário do que qualquer um possa pensar, ficaram lindos os vestidos; ficamos felizes com eles. As roupas e bolsas mais bacanas que tive foram feitas pela minha mãe.

Continuo não gostando de entrar em lojas para comprar roupas. Se entrar em uma livraria ou em uma loja de discos, até mesmo na locadora de vídeos, esqueça-me. Mas em lojas de roupas eu entro e saio e não experimento o que compro.

Minha mãe gosta de ajudar pessoas, o que surpreende aqueles que a acham brava. O que seria de nós se não fosse a opção de olharmos o outro mais de perto, não? Porque, apesar do ar grave e das palavras nem sempre dóceis, ela é das mais justas mulheres.

Vieram-me tais lembranças ao conversar com minha mãe sobre a aposentadoria dela. Em outubro ela completará 60 anos de idade e está ansiosa por poder se mudar para o interior de São Paulo, onde quer um pedacinho de terra onde plantar e ter o que colher. Quer aproveitar a sombra das árvores, o vento fazendo as folhas cantarem, o silêncio da noite.

Neste futuro se espelha um descanso merecido. Dona Alzira tem cuidado de tantos e há tanto tempo; lutado batalhas de quebrar muitos ao meio, que merece cuidar de si, através daquilo que aprecia.




Minha mãe é das raras pessoas, meus caros. Ensinou a mim e aos meus irmãos da amarelinha à responsabilidade pelas nossas escolhas. Sei que é um papel que qualquer mãe deve desempenhar, mas na prática, sabemos que não é bem assim.

Além do mais, ela faz o melhor café que eu poderia experimentar.


www.carladias.com

Comentários

Marisa Nascimento disse…
Carla, abençoadas sejam todas as mães e o rastro de lembranças que elas deixam, seja pelas mãos que confeccionam carinho, seja pelas lições, mesmo que silenciosas. Que a sua cultive e receba muito amor!
Carla, bonito vê-la vestida com o carinho por sua mãe.
Carla Dias disse…
Marisa: obrigada pelas belas palavras. As mães as merecem mesmo!

Eduardo: algumas mães nos ensinam a usar os mais ternos sentimentos, não?

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