terça-feira, 1 de julho de 2008

UM DIA NO BOSQUE >> Pedro Cardoso Machado

Putz! Eu tinha dez anos... Parece que foi ontem, eu era um menino, andava descalço, jogava pedra pra lua, brincava pelos bosques, colhia flores silvestres e frutos maduros. Era tudo de graça, ninguém era “dono” daqueles pés de veludo, mangaba, jatobá, goiaba, cagaita, orquídeas. Árvores enormes que faziam parte do bosque do colégio Ateneu Dom Bosco em Goiânia.

Quando olho para trás vejo que lá se foram anos e anos, mas para os meus olhos nada mudou. Vejo tudo como antes. É só buscar pela memória, lá, minha infância, minha felicidade, minhas pegadas em cada galho de árvore, tão preservadas. Pulava de uma figueira para outra sem a menor dificuldade, sem o menor risco, eu era um pássaro-menino. Conhecia cada pedacinho daquelas plantas, todas tinham nome, apelido, posição no terreno e época de colher os frutos e as flores... Um paraíso que guardo comigo e que utilizarei para contar minhas travessuras aos meus bem-vindos netos. Prometo que não vou inventar nada, contarei com detalhes cada dia em que lá estive.

O bosque era divino. Aos meus olhos... Uma imensidão verdejante. Além de tudo servia de pasto para a tropa da cavalaria municipal. Os cavalos, meu Deus! Uma tentação indescritível, cada qual mais fogoso e elegante. A despeito do soldado que os vigiava, dos registros que traziam gravados nas ancas, eu colocava nome em todos eles. Ah o Mambo! Uma escultura cor de mel. Mais de 1,85 de cernelha, patas brancas, crina enorme, rabo robusto, passadas cadenciadas e macias. O responsável pela tropa contava que aquele era o predileto do Comandante, que aquele era o animal mais valioso, que aquele era o animal que puxava a tropa no dia Sete de Setembro. Eu o via, embasbacado. Sua postura era mesmo a de um valioso garanhão. Galopar em seu lombo, era tudo que eu mais queria. Eu me via pulando córregos, saltando troncos caídos, correndo por baixo daquelas árvores frondosas que compunham o bosque. O soldado permitia que eu cavalgasse com qualquer um daqueles animais, bastava que eu os pegasse, que eu os laçasse, que eu os capturasse por alguns minutos. Mas o Mambo era o Mambo: arisco, inteligente, malandro, atraente. Eu não tinha um laço, uma corda apropriada para que pudesse agarrá-lo e, mesmo que tivesse, não conseguiria jogá-lo em sua cabeça. Mas o sonho era grande demais, o desejo de tocá-lo era maior que eu. Um dia tive a idéia de fazer uma arapuca com um cipó que tirei de uma gameleira que havia caído com a chuva do dia anterior. Fiquei maravilhado com a idéia de que poderia, enfim, prendê-lo de alguma forma. Tirei o cipó com esmero, com precisão, com um cuidado inimaginável. Finalmente poderia capturá-lo. Fiz um laço enorme. Sabia que não poderia jogá-lo, foi aí que tive a idéia de abri-lo no chão como uma armadilha, de forma que, quando ele passasse por cima do cipó, eu puxaria e prenderia uma de suas patas. Respirei fundo, escolhi uma trilha onde eu pudesse direcioná-lo, de modo que ele não tivesse outro caminho a percorrer senão aquele. Com tudo preparado, toquei o “bicho” como se tangesse um ente de outro planeta. Fomos lado a lado, eu e ele, no mesmo passo, na mesma toada. Quando colocou a pata da frente dentro do círculo, ainda me lembro como se fosse agora, puxei a extremidade do cipó com todas as minhas forças. Ele estava finalmente preso! Um gigante à minha frente. Ele estava ali, dócil, quieto, afável. Pensei... Sou um felizardo. Gritei do fundo da minha alma... Sou o mais feliz dos humanos!

Ah, meu Deus! Aquele dia jamais sumirá de minha caixa de segredos.

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grande Pedro! Bom vê-lo de novo por aqui. Que o menino que você era — com sua coragem e seu gosto pela vida — inspire o menino que o Crônica do Dia é E que a vida seja longa para todos nós!

Marisa Nascimento disse...

Pedro, esse relato da sua infância deixou um gostinho de nostalgia com saudade do passado. Ainda bem que o Crônica do Dia, ainda uma criança, tem muita história para viver e contar.

Carla Dias disse...

Pedro, Pedro... Bom te ler de novo. E assim, numa prosa de infâncias e descobertas.