domingo, 26 de outubro de 2008

VÁ, DOR! >> Eduardo Loureiro Jr.

Rafael Alves de Souza / Flickr.com
Escrever não o que está sendo, mas o que há de vir... Como quem descreve o sonho antes de dormir. Feito quem planeja instantes sem planos de os cumprir.

Pouco tão me falta. Eu padeço é de raros excessos.

O corpo é corda — levemente tensa — de instrumento. Alguém que toca. O corpo que dança não é o que dança, é o que é tocado, e junto toca. Existe o silêncio do antes, o impacto do momento e a vibração do depois. Silêncio novamente.

Diz o sal:
— Vá, dor!
E a dor se vai em salgada obediência.

O bem é tão grande que envolve o mal em suas pequenezas e o faz girar: rodopios de dança.

Este mundo está levitando. A música está tirando nossos pés do chão. A alegria nos assombra feito um fantasminha. Brincadeira de criança: vida, tempo, som.

De vez em quando, levamos a sério. Crises, desastres, assassinatos, violações. A vida é tão amedrontadora quanto um teatro de assombrações.

Eu quero contar uma história, a nossa. Simples e tocante feito a que ouvi ontem...

Um homem pobre em Buenos Aires. O filho brasileiro que não vê o pai desde os 3 anos. Milhares de quilômetros — e uma língua — que os separam. A busca em listas telefônicas. O encontro marcado. O filho que toca o ombro do pai. O pai que, após 24 anos, sente e ouve o filho sem o ver: está cego. Um violino, que o pai músico esperava há meses, chega finalmente — no preciso dia — e é dado de presente ao filho. Revelações de distância: a mãe do pai escondia as cartas que chegavam da mãe do filho.

As histórias precisam do tempo que se sucede. E o tempo não se sucede mais em mim. Olho tudo e vejo tudo. O tempo se há convertido em espaço. Eu vejo tudo da minha distância. E — feito potente telescópio — vejo tudo em cada detalhe de tudo ser.

Mas desagradam-me as frases curtas, a prosa fria. Quero a alegria de ser quem não penso que sou. Estar na praia embaixo do guarda-sol ao invés de caminhar. Mover-me lentamente em engarrafamentos. Sambar um show inteiro. Passar a noite entre fumantes e bêbados.

Viajar devolve-me o coração. Viajar é chegar à beira de si: beira com beira de outro si. Viajar devolve-me as gentes. O corpo — corda — vibra com o olhar da menina, com o vestido da menina, com o canto da menina, com o toque. Meu corpo frágil feito uma bola de sabão — na mão espalmada.

Tudo por um triz. Avião que acelera antes vôo. Mão que vai abrir torneira. Sonho prestes já em carne. Texto quase sem palavra. Transição de relógio em meia-noite: muda tudo, muda nada.

Senhor do Bonfim, me dê um bom meio — porque o começo já foi há muito tempo.




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11 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, não é novidade que tudo que você escreve produz um efeito anestésico imediato em seus leitores. Eu, por exemplo, fico aqui com cara de paisagem e um ar de sorriso bobo no rosto. :)
Mas hoje li e reli seu texto e fiquei aqui, imaginando o que se passa nessa sua cabeça enquanto você escreve, de onde surge tanta inspiração...E isso só pode ser coisa do Senhor do Bomfim que te abençoou sim, do começo ao fim.

C Letti disse...

Concordo com a Marisa... de onde vem esse vento carregado de ludicidade?
Roubei uma frase pro orkut. :)
beijo grande!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Marisa, deve ser coisa do Senhor do Bonfim, porque tudo que passa pela minha cabeça são apenas vozes. E de vez em quando, pelo corpo, passa a vida. E ainda há de ser de quando em sempre voz e vida. :) Bom tê-la de volta.

Ah, Claudia, o vento É do ar do Pátio. :) Minha frase ficou linda em seu lugar de honra. Grato.

criscalina disse...

É, parece que a viagem lhe fez bem. E quanto desse texto é licença poética, quanto é verdade? :)

Beijo,

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Cris, tudo verdade pedindo licença poética pra fazer bem à viagem da minha vida. :)

Anônimo disse...

Você está triste?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônima, eu não estou triste, mas havia mesmo um tom de tristeza na crônica. :) Boa percepção!

Carla Dias disse...

Sabe o quê? Que suas viagens sejam sempre abarcadas por bons ventos. Por você, que é uma pessoa querida, e por nós, aqueles que viajam através das suas palavras.

Thaís Aragão disse...

Estou morando num lindo bairro chamado Bom Fim. Estão aparecendo muitos estrangeiros e lembro do céu que você leu para mim. Aliás, percebi que tenho essa mania de dormir olhando para as estrelas, porque no apartamento onde moro é assim. Quando passar aqui por perto de novo, faça uma escala.

Thaís Aragão disse...

No apartamento onde moro também é assim. Acho que sempre será.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, é bom lhe levar na bagagem. :)

Thaís, estou precisando mesmo dar uma esticadinha pra conhecer Porto Alegre qualquer dia desses. :)