sexta-feira, 10 de outubro de 2008

BR 3 >> Leonardo Marona

Algum escritor uma vez disse que as boas famílias são iguais, mas cada família ruim tem sua particularidade fundamental, que permanece. Não me lembro quem disse isso, era um início de romance, talvez um russo. Os russos podem não saber mais, mas sabem melhor.

Mas isso não importa, não vou procurar saber. Pobres das famílias ricas de afeto, que são iguais entre si. Prefiro as famílias turvas, cada uma com um abismo próprio e infinito, porque não-diagnosticado. Elas são a negação da natureza - e esse é o papel fundamental do ser humano: sabendo de antemão que sairá derrotado, negar com todas as forças aquilo que o limita, que oprime sua contradição, que fornece tudo e não explica nada. As famílias ruins duram mais. Elas mantêm o mundo girando, torto mas próprio, perfurando conveniências.

Exige-se uma especialidade para que se atinja a normalidade - e ainda não se sabe que tipo de cérebro pode se satisfazer com esse tipo de metodologia. Mas não me especializarei, de minha conta, porque isso não apenas não convém: isso não importa. Isso é o que importa: que isso não importa. O mundo não é especializado - digo veja o que somos capazes de fazer um com outro apenas por não estarmos preparados - e tudo o mais resultará em estupenda frustração.
Especializando-me deixarei de conhecer muitas coisas em detrimento de poucas, mas, no entanto, sem me especializar não conhecerei nada. Isso me parece mais coerente diante do tamanho da catástrofe, mais próximo do que não podemos mas chamamos de "verdade original". Aquela inapelável, a chance dúbia de duas patas e uma cabeça que nega a verdade porque ela não é satisfatória, foi programada para não ser.

Não conhecer nada: nosso drama habitual. Sigo nessa direção vendado e com as pernas amputadas, me arrastando com os lábios trêmulos e o coração gelado. Do que estou atrás? Não saberia dizer e isso, ao passo que me mata, me liberta. Mas de que me serviriam as pernas se eu fosse especializado em viver? O que são as perguntas quando se esperam as respostas certas? Especializado eu teria que permanecer parado, com a seta sempre em riste e o corpo tranqüilo, até a falência inevitável. A gente não morre porque cansa, a gente morre porque não se desespera mais.

Não seria preciso andar de qualquer forma. Acontece que o abismo vem sempre em nossa direção. Eles se movem, isso é simples. O caso é que os especialistas não sabem disso, pois atingiram a normalidade. A normalidade é como forçar o mundo para dentro de uma caixa de espinhos dourados.

Mas, por sermos extremamente limitados, andamos em frente. Não sabemos que frente, mas nos ofendemos se nos questionam. Andamos pelas vielas sem que nos dêem por vistos, em busca da SENSAÇÃO. Essa fugidia, em caixa alta. Andamos e não dormimos direito. Nossos quartos são escuros, pequenos cadafalsos. E nem mesmo sabemos descrever a sensação de estar, pois uma vez estando, estamos insatisfeitos e não pensamos em mais nada, aceitamos tudo. Descrever é mentir, o verbo amputa o sentido.

Parece que o mercado financeiro quebrou, os bancos estão em greve, os investidores fantasmas em pânico, alguns aposentados não conseguem seu dinheiro e passam fome ou morrem de doenças leves. Aqui nada disso importa. Estou seco no meu canto, e nada me falta além da noção de galho pisado. A noção, eis a única condição prestativa para a morte. O resto não importa.

Queria dizer algo mais, mas o cansaço me incomoda, como um tiro no cerne. Brigar e amar são a mesma coisa: não há dignidade. A verdade nua incomoda mais do que uma crônica para explicá-la por si própria: o tal sonho dentro do sonho de Edgar Allan Poe. Não há sujeito depois do verbo. Essa massa disforme, eis a grande dissonância. O teto preto da verdade estupenda, em prol da verdade de cuecas.

Mas por que perseguimos e fugimos de pessoas queridas pelas ruas que não acabam e nem queremos conhecer? A explicação disso, ao meu sentir, iria em direção ao extermínio. Não haveria o que dizer. Se ao menos pudéssemos nos ver nus, alheios ao destino incompleto. Mas não admitimos, seguimos senhores da razão, usamos verdades como gravatas apertadas. Mas as verdades são inconvenientes, e não sabemos onde achar a verdade voto de minerva.

A língua de fora, os ossos quebrando por dentro, "nada disso é verdade", a fome legitima a doença. Agora como dormir com ela, proliferá-la sem que seja câncer, o método desconhecido que prova a existência de deus? Senhor, abençoai os que não sabem rezar e babam nas horas equivocadas. Os que se vestem com milagres e deságuam nos colos alheios. Abençoai os entrevados com sangue nos olhos. Os inaptos para o vôo, que comem terra suja. Eles pagam pela vida plena, pelos desejos vagos de quem se diz feliz. É preciso o equilíbrio, e alguém deve sofrer. Mas estamos aqui e não conhecemos outra glória, somos tapete de sonhos.

E daí já não importa mais a família, a extração do membro, o reduto do espírito são. Mentimos inevitavelmente porque a verdade é intragável. A cada minuto mentimos: isso é estar vivo. Quando dizemos a verdade estamos dizendo simplesmente: "meu tempo é curto, não sei o que fazer". Mas não pedimos ajuda, somos seres humanos.

O cheiro da distância é o suficiente para planejar pecados. O pecado é o que, em nós, culpa deus – inexistente ou cômico. As traições tornam-se pequenas, o peito arde, "nada importa", diz o mundo por nós paralisado. Poesia é para quem pára o tempo. Coragem é para quem tem pouco. Para com o resto, há que ser leve, reparar na dobra entre as partes – e cada parte é um mistério.

E ficaremos apenas com o que importa: estrada onde corpos caem à revelia, e onde estivermos estaremos os dois, quem sabe um, e morreremos da mesma solidão que renova o mundo, de mãos dadas.


Partilhar

5 comentários:

Anônimo disse...

Verdades, mentiras, olhar para dentro de si, enxergar o outro. O que realmente importa? Morrer de mãos dadas.
Estou aqui ainda catatônico com que li. Muito bom!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, sua crônica me fez lembrar de um professor do mestrado, que disse certa vez: "Está tão bem escrito que até convence a gente de uma coisa que nem é verdade." :)

Cristiane disse...

Quem escreveu foi Tolstoi, no início do romance Ana Karenina. "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira".

Cristiane disse...

Este seu texto caberia perfeitamente num dos livros de Clarice Lispector. Há momentos em que a dor e a confusão internas são maiores do que os males do mundo. Hora de parar e ver, sentir, pensar e observar. Não agir.

Anônimo disse...

sim alguém sempre sofre, mas tudo passa...e não precisa saber rezar...o mais profundo é a pele.
acho que proust disse: tem que mudar a visão, não os olhos!!!