Pular para o conteúdo principal

TRÊS TRILHÕES [Sandra Paes]


A notícia tinha sido dada na hora do jornal, mais cedo: Europa injeta três trilhões de euros nos bancos na tentativa de salvar a economia.

O pensamento focado nos zeros, virou carneirinhos. Quero dormir e lá vem mais uns zerinhos...

Pensar na economia como uma doente precisando de transfusão, já é uma coisa complexa e difícil de imaginar, por mais que tentem explicar toda essa onda de efeito dominó começada, dizem nos USA. Agora, ficar imaginando uma enorme quantidade de zerinhos pra resgatar a doente, fica ainda mais difícil. Mais zerinhos...

Três trilhões de euros na Europa, não sei quantos bilhões de libras na Inglaterra, mais alguns bilhões na Rússia, mais oitocentos bilhões de dólares nos USA. Com todos esses zerinhos dava pra fazer uma transfusão em toda a população do planeta. Só a classe média do mundo, por exemplo, que é quem se mata, se esfola, pra sustentar todos esses cifrões acumulados, se beneficiaria diretamente se tivessem intenção de salvar mesmo alguém. E se pegam todo esse dinheiro e distribuem simplesmente pras pessoas pagarem suas dívidas, acabava o problema, com certeza.

Como assim? Quem deve é quem esta no mercado produtivo e distributivo. Se pegarmos as pessoas físicas, e déssemos a elas um abono pra liquidar as dívidas acumuladas, com certeza os bancos se encheriam de vitaminas e ficaria tudo sanado.

O mundo tem hoje cerca de sete bilhões de habitantes. Os que participam do sistema produtivo de finanças, não chega a isso. Solução simples pra se reiventar o mundo com mais qualidade de vida e saúde: pega-se todo esse dinheiro acumulado e distribui-se para as pessoas pagarem suas dívidas, saudarem seus compromissos financeiros, aliviarem suas preocupacoes e angústias todas.

E pensar que essa onda veio no Dia do Perdão - o feriado judeu de maior importância. E o perdão está diretamente associado com perdoar as dívidas. Então? Era só fazer cumprir o mandamento, exercer o que a Lei Maior determina. Simples assim.

Sabendo-se que essa dívida também é virtual, por que toma-se o dinheiro das pessoas em nome de sustentar o estado, com seus impostos? O doador básico, além de doar seu tempo, sua força produtiva pra ter alguns trocados, ainda tem que pedir ajuda financeira pra sustentar a casa e a família.

Quem fica com tudo? Os donos do dinheiro - que os guarda muito bem nos cofres dos bancos centrais de todos os paises, pra jogar pela janela quando a coisa aperta, ou seja, o povo não tem mais dinheiro pra pagar suas contas. Trabalhou tanto e não conseguiu poupar nada. E quando o faz, acredita estar sendo acionista de empresas, comprando ações na bolsa de valores, e fica de boca aberta esperando que as tais empresas se valorizem, e assim ele pode dizer que “teve um quinhão de lucros” junto com as empresas que apostou ser bom alvitre. Qual o que! Banqueiro só joga pra ganhar - e pra ganhar alto.

Pois é... Dizem que a prostituição é a profissão mais antiga do planeta. E até houve um tempo em que fecharam as casas de tolerância ( o nome é bem curioso). E foram fechadas numa época da vida por chamarem de “mulher de vida fácil” as trabalhadoras do local. As casas de tolerância financeira com suas tetas gordas só vão acumulando notas em suas cintas, cobrando juros altíssimos pra emprestar o dinheiro que foi recolhido indevidamente de quem deu o sangue e o suor durante todo o ano.

E todos esses zerinhos rolando na minha mente não vêm pra me ninar não, mas pra tirar o sonho - se é que ainda restou algum.

Sonhar o que? Comprar o que? Viajar para onde? Sim, por que tudo acaba sobrando sempre pra gente mesmo. Tudo que se quer ou precisa fica mais extorsivo depois que todos os trilhões vão pros cofres de quem já lhe cobrou nocivamente e ainda, insatisfeito com o sangue que lhe retirou, ainda ganha mais transfusão pra gente pagar de novo de forma indireta.

Deve ser por isso que se diz que Dracula é imortal. Claro, quem vive do sangue do outro, se imortaliza até em forma de cartão de crédito, de dividendos, de caderneta de poupança, de CDB’s, de consórcios, e as ruas cada vez mais entupidas de carros, a gerar mais poluição, as cidades mais entupidas de barracos e “apertamentos” vários, empilhados em cima dos outros, gerando mais violência, e mais extorsões pra se administrar os pombais, e, enquanto isso os hospitais públicos cada vez mais entupidos de macas e gente moribunda. Sim, por que a doença da miséria e do confinamento se espalha como epidemia, e o discurso de mais saúde e educação para o povo, continua.

E ainda votam em vereadores, em governadores, em presidentes... A cegueira não é mais um ensaio, é um espetáculo de apresentação permanente e continua, e é claro, ninguém vê. Será?

Imagens: Euro/Dolar, Jornal O Globo; Dolar/Real, Revista DW-World DE; Euro us Dollar, Revista Option One

Comentários

Debora Bottcher disse…
Muito pertinente esse texto. Quem paga a conta é sempre quem está do lado mais fraco da corda. E o pior é que, pra população, não há nada a fazer ante o caos causado pelos governantes e seus aliados.
Beijo, moça.
Simone disse…
Excelente!!. Seria ótimo distribuir, panfletar, estampar nas manchetes e tentar ver se melhoramos nossa visibilidade da vida.Vc enxergou tudo Sandra.Bjs.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …