quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O Alfaiate >> Ana Coutinho


Me deparei outro dia com a imagem acima, e tive um instante de susto. Eu sabia da história, mas nunca tinha me dado conta dela. Eu sabia que um homem, um humilde alfaiate austríaco em 1919, achou que seria capaz de voar e criou o seu próprio aparato para isso. Vestiu-se, como quem veste seu melhor terno e foi para o alto da Torre Eiffel. Subiu a torre, cheio de coragem e força, chegou ao topo, olhou para baixo, titubeou, respirou, pensou, andou um pouquinho para o lado, talvez até tenha cogitado desistir, mas, quem sabe pela multidão que o assistia lá de baixo, ou quem sabe pela própria fé, inventou de não desistir e saltou. Saltou do alto da torre Eiffel achando que iria voar. Ele acreditou, piamente, que iria pairar sobre aqueles que o assistiam, deve ter se imaginando voando, batendo os braços tal qual um pássaro, enquanto a platéia o aplaudiria.


Ah, quanta fé... Quanta coragem e — ao mesmo tempo — quanta ingenuidade. É quase uma criança o senhor alfaiate. Só a infância e a paixão nos permitem essa esperança insana de um suicídio. É um apaixonado, um homem e um menino, um humano que não se sabe humano, um humano que, ao contrario de nós mortais, se crê Deus. O alfaiate me despertou uma espécie de inveja, uma compaixão misturada com encantamento.

Quantas vezes me vi diante do abismo e desejei saltar? Quantas vezes senti que precisaria de um pouco mais de fé para enfrentar uma situação e, no entanto, recuei? Quantas vezes me paramentei de força e coragem, me preparei e desejei ardentemente um vôo baixo, nem precisava ser tão arriscado quanto o do alfaiate, mas, ao me ver humana e falível, desisti com medo do erro, do fracasso, da humilhação.

Para o alfaiate, a queda era pior do que uma humilhação. A queda era a morte. Errar não causaria apenas o desconforto e a falta de jeito que causaria a mim. Errar para o alfaiate representaria o fim das chances, das possibilidades de acertos e — inclusive — de novos erros.

Ainda assim ele saltou. Ainda assim o alfaiate se arriscou. Talvez preferisse a morte ao vexame que seria a falta de aplausos, a crítica e a crueldade alheia. Talvez... Mas não lhe foi perguntado. Ninguém tentou lhe tirar dali, ninguém lhe puxou pelo braço e disse: “Ei, meu amigo, venha cá. Vamos conversar, isso pode não dar certo...” Não... Uma multidão assistiu ao sonho desse homem. Várias pessoas, como eu, você, nossos pais, assistiam àquela tragédia em forma de poesia. É uma poesia torta, um sonho encantado e cheio de sangue, a doçura tonta do alfaiate.

Eu o invejo, sim. Todos os dias em que meus pés rateiam diante do desconhecido. Eu o invejo sempre que sinto minhas pernas bambas ao caminhar para o novo, ou quando minha voz não sai por medo de ser tola. A vida se fez tão cheia de regras e obrigações que não vejo espaço para essa esperança tão fora de propósito e irracional do alfaiate. Talvez por isso eu não consiga deixar de invejá-lo, ao menos um pouco. Porque ele deve ter sido o último tolo corajoso que já existiu. Tolo, corajoso e determinado, como eu quis ser tantas vezes, mesmo que depois me estatelasse no chão como, aliás, aconteceu com o pobre alfaiate.




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9 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Talvez ele tenha realmente voado. :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Ana... no documentário "Nós que aqui estamos por vós esperamos", tem um trecho sobre seu alfaiate. Confere aqui - http://it.youtube.com/watch?v=Lwl_CdjW3sw - a partir do minuto 8. A música do Wim Mertens é de voar! :)

Debora Bottcher disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Debora Bottcher disse...

Ana, querida,
Essa coisa de ser corajoso por um minuto, não funciona na vida real, a gente sabe. Recuar é parte da sobrevivência - não falta de coragem: alíás, quase sempre a gente precisa de muita coragem pra desistir de propósitos que, intimamente, a gente suspeita que vão nos destruir, mas porque já estamos à margem, com platéia, ponderamos. O medo nos protege, vc sabe melhor que eu. Assim, eu não tenho inveja do alfaiate - tenho pena...
Um beijo.

Marisa Nascimento disse...

É...que linha tênue que separa o lado de lá com este nosso mundinho! Não sei se é coragem ou falta dela, mas é uma fração de segundos que muda tudo...

albir disse...

Lá estavam, Ana, centenas de pessoas que assistiam tão somente a um tresloucado gesto. Cá estaria eu também assistindo a não mais que uma loucura, não fosse ela recontada por você. Há mais coisas entre os atos e os fatos que os contêm do que sonha a nossa vã percepção. E sorte haver cronistas como você que os traduzem.

Mariana disse...

Bom minha amiga querida, eu aqui, que conheci o alfaiate, não posso pensar mais em nada disso como se fosse algo real, algo que acontece no mundo (qualquer que seja), faço de conta que é só uma história, de Dia das Bruxas...rs
Um beijo grande e que as torres eiffels sejam palcos de peças de finais felizes.
Mari

Isa Tucci disse...

é...voar ele vôou. Ele não disse também, como sonhava com o final não era? Talvez este fim nem tenha sido tão ruim á ele que por uns instantes vôou.
Parabén Ana, crônica maravilhosa e muito bem escrita! Amei!

Carla Dias disse...

Ana... Os abismos podem ser bem sedutores, pois nos faz pensar nessa coragem endoidecida. Mas às vezes o melhor é namorar os abismos, flertar com sua complexidade. E pensar sobre aonde podemos chegar se saltarmos, como o fez o alfaiate, pode nos fazer compreender a coisa boa que é apenas pensar sobre eles... Os abismos. Então, voltamos à superfície, mais fortes do que antes.
Há momentos em que o melhor é aposentarmos as imaginárias asas.