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O QUE NOS SACIA >> Ana Coutinho >>

Eu estava absolutamente faminta quando abri o refrigerador e, lá, no fundo, havia um pote de sorvete antigo, esquecido e abandonado, prestes a me fazer feliz. Antes de esticar o meu braço pra pegá-lo, fiz a mim mesma uma única pergunta: Eu serei capaz de tomar apenas uma, uma colherada desse sorvete? Eu sabia que não seria, portanto, iniciei uma negociação comigo mesma.

Passei pelo espaço da colher: Poderia ser uma colher cheia, lotada. E poderia ser de sopa também. Ou, de repente, tenho uma concha de feijão grande aqui, poderia ser a concha de feijão, que está inserida na espécie “colher” dentro da minha gaveta. Antes de concluir a minha auto-negociação, lembrei-me das inúmeras vezes em que estive nessa mesma situação. Encontrara exatamente o que queria, mas, ao invés de saciar-me rapidamente, calculava quanto daquilo me seria de fato justo.

Acontece quase todos os dias, com quase todo mundo. Uma amiga procurava uma saia preta reta. Pois, assim que encontrou a saia preta reta, tratou de temer que seria cara demais. E era. Quando a achou barata, não tinha o tamanho. Também buscava um namorado que lhe fizesse feliz, mas, quando um homem se apaixona por ela, o medo e a aflição lhe cegam os olhos e ela atravessa a rua. Pode parecer um auto-boicote, mas não o é. É a vida, atendendo aos nossos pedidos mal-feitos, e nós notando que não sabíamos se queríamos mesmo isso.

Não sabemos bem o que queremos e, quando estamos de mãos vazias, queremos mais do que podemos. Eu já pedi empregos dos quais eu não daria conta. Já pedi atividades que não consegui fazer. Já pedi amores que não tinham nem sequer afeto. E, depois de achar muitos amores tortos, quando quis um amor definitivo, e a vida me presenteou, eu titubeei. Quando meu amor pediu-me em casamento, eu senti-me diante de um pote de sorvete inteiro: É demais para mim? Eu consigo isso tudo? Eu mereço isso tudo? Eu posso com tamanha felicidade e alegria? Aquela noite eu resolvi saciar-me, simplesmente, e aceitei. Nos esbaldamos juntos, mas nem sempre é assim. As vezes, meu amor-pote-de-sorvete é muito, muitíssmo para mim e, nessas horas, divido-o em duas colheres de chá pela manhã, não mais do que isso. De certa forma, tememos a alegria e a satisfação. É como se precisássemos sempre da fome, ou como se nos cansássemos à medida que nos víssemos saciados e felizes. Cansamos do ruim, mas — como somos estranhos! — cansamo-nos do bom igualmente. Talvez até mais.

Eu não sei quando aconteceu. Talvez quando deixamos a infância e começamos a fazer cálculos. O que era simplesmente bom, poderia ser demais. E assim, perdemos enormes chances de simplesmente saciarmos a nossa fome com um pote de sorvete inteiro, conforme o desejado, aliás.

Pois eu havia decidido não pegar o pote. Fechei o freezer e voltei para o computador, quando me deparei com um email do Eduardo, me convidando para ter um dia fixo aqui, na Crônica do Dia. Eu escreveria todas as quintas-feiras, se aceitasse.

Pois foi como um pote de sorvete para uma pessoa faminta. Antes de pensar se eu conseguiria dosar a quantidade certa, se conseguiria escrever corretamente, nem de mais nem de menos, se encheria uma página, ou se deixaria pela metade... antes de pensar tudo isso, eu corri para a geladeira, peguei o pote de sorvete e sentei-me de volta na frente do computador, colher em punho, boca cheia... e eu aceitava a convite. Resolvi saciar-me, enfim.

Comentários

Marisa Nascimento disse…
Muito, bem, Ana! Divide comigo esse pote de sorvete? Porque para mim, será mais um prazer ter a quinta-feira como um dia fixo para uma leitura agradável de textos inteligentes. Obrigada por saciar os leitores do Crônica! :)
Querida Ana, seja muitíssimo bem-vinda! Que belo texto de estréia. Agora terei mais um motivo para ser feliz às quintas-feiras. :)
albir disse…
Seja bem-vinda Ana! É um prazer continuar a lê-la e saber que vc continuará a dividir conosco suas palavras em generosas colheradas semanais.
Carla Dias disse…
Ah, Ana... Que bom ler você! Tê-la novamente na nossa sala de estar.

E de cara você nos ajuda a redescobrir os potes de sorvete que vamos escondendo de nós mesmos, com medo de tê-los e medo de perdê-los. Experimentá-los, saciarmos desejos e descobrirmos novos sabores.

Somos meio malucos mesmo, não?

Gosto de pensar que, com o passar do tempo, amadurecemos nossas ousadias; atiçamos a liberdade. Então, tudo fica menos lá no fundo da geladeira. E, sem percebermos, estamos assim: comendo a felicidade de colherada!

Bem-vinda de volta!

Bjs!
Carol Barcellos disse…
Aninha, que bom ver vc por aqui. Esse convite já estava mesmo na hora. E se vc ficasse na dúvida, eu é que iria lá abrir o freezer, colocar a colher na tua mão e dizer: Vai, menina, toma esse sorvete, esvazie o pote inteiro, e seja muito feliz!!!

Beijinhos doces cristalizados!!! ;o)
Cris disse…
Mais um espaço para ler suas doces e divertidas histórias.

Parabéns!!!

Beijos, querida
Cris disse…
Mais um espaço para ler suas doces e divertidas histórias.

Parabéns!!!

Beijos, querida

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